antonio leandro

marca, marketing e mídia

Grinding It Out: The Making of McDonald's

livro · núcleo · Ray Kroc, Robert Anderson · · ~240 min de leitura do original · pago

a tese

a invenção de kroc não foi o hambúrguer nem a linha de montagem, que já eram dos irmãos mcdonald: foi vender franquia de uma loja por vez, trocando dinheiro rápido por poder de impor o padrão

o que fica

  1. Kroc não inventou o McDonald's: o Speedee Service System era de 1948, dos irmãos Richard e Maurice, e ele chegou em 1954 como vendedor de máquinas de milkshake curioso com um cliente que comprou oito de uma vez.
  2. A inovação de Kroc foi contratual, não culinária: vender licença de uma loja por vez em vez de território inteiro, sabendo que a licença territorial era o caminho mais rápido para o franqueador ganhar dinheiro.
  3. Padrão uniforme só existe onde há poder para impô-lo, e o poder de Kroc era o franqueado querer a segunda loja: quem quer a próxima obedece na atual.
  4. Recusar corte de custo pode ser decisão de negócio: Kroc barrou o enchimento de soja no hambúrguer e mandou devolver o dinheiro de quem esperasse mais de cinco minutos.
  5. A marca valia mais que a empresa: em 1961 os irmãos venderam por 2,7 milhões de dólares, esqueceram de reservar o direito ao próprio nome, e o restaurante original virou Big M até fechar.
  6. O método de Kroc dependia de controlar o processo e não transferiu para onde o resultado não se controla: dono do San Diego Padres, ele pegou o microfone do estádio para xingar o próprio time e concluiu que havia mais futuro em hambúrguer que em beisebol.

o problema

Um restaurante que dá certo é um restaurante. A pessoa que faz ele dar certo está de pé dentro dele, olhando a chapa. Em 1954 o de Richard e Maurice McDonald, em San Bernardino, dava tão certo que comprou oito máquinas de milkshake de uma vez — número que chamou a atenção do vendedor das máquinas, um sujeito de 52 anos que já tinha vendido copo de papel, corretado imóvel e tocado piano em banda, e cuja linha de produtos estava perdendo mercado para os aparelhos mais baratos da Hamilton Beach. Ray Kroc foi até lá para entender por que aquele lugar fazia tanto milkshake.

O que ele encontrou já estava pronto: a linha de montagem que os irmãos chamavam de Speedee Service System, de 1948. O problema não era o processo. Era que franquia, naquele momento, se vendia por território: você licenciava um estado inteiro para um comprador, recebia à vista e perdia o controle sobre o que ia acontecer ali. Rápido de faturar, impossível de governar. E os próprios irmãos não queriam crescer — queriam poucas lojas, e nunca mandaram a Kroc a autorização formal para mexer em coisas como a planta original do prédio.

a ideia

A unidade do negócio não é o restaurante. É o direito de abrir mais um.

Kroc vendia licença de uma loja por vez. Ele sabia que a licença territorial era o caminho mais curto para o franqueador ganhar dinheiro, e escolheu não pegá-lo, porque via ali a perda da capacidade de dirigir o rumo da rede. Com uma loja por vez, o franqueador guarda uma alavanca permanente: quem quer a segunda unidade se comporta na primeira. A obrigação de manter serviço e qualidade uniformes vinha do contrato com os irmãos, mas só virou realidade porque havia como cobrar.

Daí sai o resto. Regra fechada de porção, método de cozimento, tempo, embalagem. Hambúrguer sem enchimento de soja, mesmo custando mais. Dinheiro de volta para o cliente que recebeu o pedido errado ou esperou mais de cinco minutos. Nada disso é gosto pessoal: é a definição operacional de “o mesmo em todo lugar”, escrita em cláusulas que alguém tem interesse em cumprir.

o que isso custou

O livro é de 1977, escrito com Robert Anderson, quando a disputa já tinha acabado e um lado estava vivo para contar. É a versão do vencedor, e o registro público em volta dela é mais áspero.

Em 1961 Kroc comprou a empresa por 2,7 milhões de dólares — o valor que os irmãos disseram quando ele insistiu em ouvir um número. Ele reagiu mal, pediu para pagar parcelado, ouviu não, e o dinheiro só apareceu porque Harry Sonneborn, que Kroc chamava de seu mago das finanças, conseguiu levantá-lo. No fechamento os irmãos não passaram o imóvel nem a loja original de San Bernardino. Kroc abriu uma McDonald’s ao lado; o restaurante deles, agora chamado Big M porque tinham esquecido de reservar o direito ao nome, fechou. Existe a alegação de um acordo de mão, de 1% de royalty perpétuo, sem nenhuma evidência além da fala de um sobrinho dos irmãos. Nenhum dos dois reclamou em público, e Richard teria dito que não tinha arrependimento.

Outras partes da lenda também não se sustentam: a história da negociação com Walt Disney foi apontada por Eric Schlosser como versão maquiada por executivos de marketing da empresa. E há o custo que uma autobiografia de fundador não paga. Kroc não tolerava funcionário encostado — “se você tem tempo para encostar, tem tempo para limpar” —, doou 255.000 dólares à campanha de Nixon em 1972 e foi acusado, entre outros pelo senador Harrison Williams, de fazer isso para influenciar o veto a um projeto de salário mínimo. O sistema que padroniza a comida padroniza também o trabalho, e essa metade fica de fora.

Fora de casa, o método não funcionou. Dono do San Diego Padres a partir de 1974, Kroc pegou o microfone do estádio na estreia, diante de 39.083 pessoas, para dizer que nunca tinha visto jogada tão burra; levou multa de 100.000 dólares do comissário Bowie Kuhn em 1979 por falar de jogadores alheios; e entregou a operação para o genro. Onde o resultado não se controla por cláusula, a alavanca não existe.

onde isso aparece hoje

O modelo de licença por unidade virou o padrão do fast food, e o episódio “Fast food franchise” de Tim Harford na BBC trata justamente do impulso que esse desenho deu ao setor. Na morte de Kroc, em 1984, eram 7.500 lojas nos Estados Unidos e em outros 31 países e territórios, com mais de 8 bilhões de dólares de venda em 1983.

Como gênero, é o avô do memoir de fundador operador — a mesma linhagem de Sam Walton: Made in America, Shoe Dog e Pour Your Heart Into It, livros em que a tese é o processo e não o produto. A obsessão por uniformidade tem parentesco direto com a disciplina de The Toyota Way; e o contraponto explícito, o restaurante que aposta em hospitalidade em vez de repetição, está em Setting the Table.

A leitura crítica do episódio dos irmãos chegou ao público pelo filme The Founder, de 2016, baseado neste livro, e pela canção “Boom, Like That”, de Mark Knopfler. O outro rastro é filantrópico: a Fundação Kroc criou a Ronald McDonald House, e o espólio de 2,7 bilhões de dólares de Joan Kroc, em 2003, foi dividido entre organizações sem fins lucrativos, com 1,5 bilhão para o Exército de Salvação e 200 milhões para a NPR.

lido pelo resumo em en.wikipedia.org por pipeline de llm, revisado por antonio leandro antes de publicar ·