antonio leandro

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o forno não prova a comida, e o cérebro devolve um poema no fim

o computismo quer que o gosto vire dado e a foto perdeu o índice do real; do outro lado, um cérebro em ruína recita um verso e uma jubarte vela o filhote morto

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escrito por pipeline de llm, revisado por antonio leandro antes de publicar · como é feito

O dia inteiro puxa para o mesmo lugar: o que sobra depois que se mediu tudo o que dava para medir. Na Aeon, um designer de interface conta o verão que passou num porão do Vale do Silício vendo dois chefs cozinharem uma fazenda inteira de carne para ensinar um forno a cozinhar. Na ZUM, uma nota de leitura sobre Fontcuberta anuncia que a fotografia está deixando de ser índice do real — e que isso, para ele, é boa notícia. Um quer que o gosto vire dado; o outro comemora que a imagem não precise mais ter estado diante de coisa nenhuma. Os dois tiram do meio a mesma coisa: o corpo que provou a comida, ou que estava ali quando a luz bateu.

No resto do dossiê esse corpo volta pela porta dos fundos, e volta chato de explicar: uma mulher com Alzheimer avançado que não falava havia um ano senta na cama, chama o filho pelo nome e recita um verso da infância; uma jubarte que fica horas embaixo d’água com o filhote natimorto; um paper que descobre que o que protege o filho não é a mãe consolar a angústia, é ela acompanhar a alegria. E no meio ficam dois textos de ofício que me interessaram mais do que eu esperava, porque tratam esse resto como matéria-prima e não como defeito. A empresa do forno tinha um mantra escrito nos quadros brancos do escritório, change the ritual, porque usuário que mexe na receita estraga o resultado. Tolkien passou dois anos tentando escrever um prefácio e desistiu por achar que prefácio estraga o leitor. É a mesma briga, com o sinal trocado: quem tem o direito de pré-mastigar a experiência de outra pessoa.

vínculo

Observed Maternal Positive Affect Responsivity Prospectively Predicts Lower Internalizing Problems in Toddlers of Mothers With Depression, Julianne Griffith e colegas — Cem díades filmadas em três minutos de brincadeira, codificadas em blocos de cinco segundos, cem mães (38 com depressão em curso) respondendo um ano depois sobre os sintomas do filho. De três medidas de sintonia afetiva, só uma prevê alguma coisa: a rapidez com que a mãe responde ao afeto positivo da criança. E só no grupo com depressão — no grupo sem, o efeito some. Ontem a manchete daqui era que um apego seguro vale por dois; hoje a variável é mais fina e mais estranha, porque o campo costuma olhar para o outro lado da díade, o do choro e do consolo. Ressalva minha, que o abstract não faz: 38 é pouco, e quem relata o sintoma da criança é a mesma mãe cujo comportamento foi codificado.

cultura

Who will taste the cherries?, Aeon, Liam Spradlin — Spradlin era o líder de design da tela de um forno que prometia prato de estrela Michelin no apertar de um botão, e a cena que ele guardou é a do chef que tenta dar cor ao cordeiro como quem “bate” nele com um maçarico e enche a cozinha de fumaça, porque aquilo não tem tradução na língua do forno. Daí ele tira o nome do que veio depois: computismo, a crença de que o universo é feito de bits mensuráveis e que por isso pode ser governado por código — de Demócrito a Descartes ao pato mecânico de Vaucanson, e daí a Musk e Amodei. O pulo do gato é ele virar a lente para o próprio ofício: como fora de um laboratório o designer só tem acesso às ações do usuário, “para o computador, as ações constituem a pessoa” — e a pessoa, como qualquer coisa além de um conjunto de ações, desaparece de vista. O outro chef resume a semana toda num resmungo: “These things are worthless. I need to be able to use my chef spidey senses.”

Musician Arima Ederra on how to build a body of work, The Creative Independent, entrevista de Jessica Kasiama — Ederra passou anos achando que só podia reivindicar um ofício depois de dominá-lo, e chegou ao contrário: “I think I like being a master of none. It keeps me curious.” Música, direção de videoclipe e zine se alimentam entre si, e ela diz que canta melhor quando tem onde despejar o resto. A parte que fiquei pensando é o objeto que ela leva na bolsa: uma pasta física, uma “bíblia” de conceitos, referências de cabelo e linguagem visual, que ela mandou em versão digital para os colaboradores antes de trabalharem juntos — o oposto exato do briefing que já vem resolvido. O disco todo saiu de duas coisas que ela desenhava sem querer no caderno enquanto escrevia: espirais e uma seta de duas pontas.

J.R.R. Tolkien on How to Fall in Love with Life, The Marginalian, Maria Popova — Em 1964 a Pantheon pediu a Tolkien uma introdução para The Golden Key, de George MacDonald. Ele aceitou, penou dois anos e desistiu, por fidelidade à própria convicção de que introdução é intrusão na alegria de topar com a história sem ninguém dizendo como se sentir. Para resolver “o problema da fada” escreveu, em vez disso, uma história de fadas — Smith of Wootton Major — com um posfácio em que define encantamento pela palavra velha ruth, pena ou pesar, somada ao deleite: “This ‘love’ will produce both ruth and delight.” Popova insiste que encantamento não é escapismo, e é a leitura certa: o que Tolkien descreve é sair do anel de ferro do familiar e, pior, do anel de diamante da certeza de que o familiar já é conhecido e controlado. Junte com o ensaio da Aeon e o par fica desconfortável: o forno é exatamente a máquina de manter a pessoa dentro do anel.

brasil

Romance tarja preta, coluna Autobibliografia, na Quatro Cinco Um — “Li O deserto dos tártaros por recomendação médica.” A receita não era clonazepam, era Buzzati, prescrito pelo então psicanalista do autor para uma mudança profissional decidida havia meses e nunca executada. O texto é curto e funciona porque não vende o livro como remédio de verdade: Drogo se acomoda no forte Bastiani à espera de um exército tártaro que talvez não exista, sustentado pelo pensamento consolador de que ainda estaria sempre em tempo de partir, e o inimigo que aparece no fim é o tempo perdido. A piada de bula no fecho — se persistirem os sintomas, o médico deverá ser consultado — salva a coluna da autoajuda que ela estava a um passo de virar.

A fotografia do futuro, ZUM — Nota de leitura sobre Against Barthes, the eye and the index, de Joan Fontcuberta (Mack, 2025), escrita num português de Portugal e num fôlego só, meio inventário do presente fotocacofônico (“e quando morrermos, vamos todos para a cloud”), meio argumento. O argumento: Fontcuberta demole os lugares-comuns herdados da Câmara clara — o punctum, o “isto foi” — a partir de um arquivo de fotos do tabloide mexicano Alarma! que, à falta de imagem do crime, encenavam o crime com figurantes. Se o índice já era encenado, a queda dele não é catástrofe, é alforria da “tirania da referência”. A coluna aceita o diagnóstico e recusa a festa: o que vem depois não será a fotografia virada para a interioridade do artista, e sim uma janela para a regurgitação não-humana de respostas visuais a enunciados, vendida em plano mensal com desconto para estudante. Lido no mesmo dia que o ensaio da Aeon, é a mesma perda descrita por dois temperamentos opostos.

ciência

Terminal lucidity: when dying dementia patients regain awareness, Psyche, Ariel Zeleznikow-Johnston — O autor é neurocientista e começa dizendo que a primeira reação dele foi que aquilo não pode ser real: pacientes com demência avançada perderam de 20% a 50% das conexões sinápticas, o cérebro encolheu visivelmente na ressonância, e morrer não melhora a função cognitiva de ninguém. Só que os relatos atravessam séculos e culturas, e há número: 6% das mortes num estudo em hospice, o que daria uns 10 mil casos por ano só nos EUA. Se for real, a implicação é grande — “ou nosso entendimento de como a memória é armazenada está fundamentalmente errado, ou existe algum substrato resistente que ainda não identificamos” — e num campo onde o tratamento de ponta custa US$ 30 mil por ano para atrasar um pouco o declínio, saber disso valeria muito. O que o texto faz bem é não escolher: as testemunhas são sempre parentes exaustos que ensaiaram por meses o que gostariam de ouvir, e no levantamento de 2024 de Joan Griffin quase metade dos episódios “lúcidos” aconteceu seis meses ou mais antes da morte, ou seja, não eram terminais coisa nenhuma, eram a flutuação normal da doença. A demência já tinha entrado aqui na edição do dia 12, pelo que ela destranca em vida; este é o outro caso, o que só acontece perto do fim e depende inteiramente de quem estava no quarto.

achados

Humpback Whales Grieve for Lost Offspring, Video Evidence Shows, Nautilus, David Nield — Em julho de 2025, na Gold Coast australiana, o capitão de um barco de resgate filmou uma jubarte parindo um filhote natimorto e ficando horas com ele no fundo, tentando manter contato visual. O estudo saiu na Discover Animals; o inédito não é o luto, é a forma — nas baleias com dentes, como a orca Tahlequah que carregou o filhote morto por 17 dias em 2018, o corpo é erguido à superfície, e esta mãe fez o contrário. Ela não bate com nenhuma das 15.800 baleias do banco de dados da costa leste, pode nunca mais ser vista, e entrou no registro científico assim mesmo, anônima, sob a expressão que o psiquiatra Colin Murray Parkes deu ao luto: o custo do compromisso.

fontes paradas

A Literary Hub está há 115 dias sem publicar, a Convivial Society há 31, a Philosophy Now há 46 e a Dirt há 307 — esta última já dá para considerar morta. Adjacent Possible, 39.