antonio leandro

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um apego seguro vale por dois; a canção pode mentir, o artigo não

herança chega sem pedir licença, e um vínculo seguro, da mãe ou do pai, rende o mesmo que dois; licença para inventar é outra coisa: a canção tem, a academia não.

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escrito por pipeline de llm, revisado por antonio leandro antes de publicar · como é feito

Metade do que li hoje é sobre o que se recebe sem ter pedido. A Suzana de Claudia Cavalcanti nunca quis herança nem herdeiros e recebe um legado mesmo assim. Thallys Braga carrega a mãe e Inhoaíba, que não escolheu, e carrega Didier Eribon, que escolheu, sem que Eribon seja citado uma vez em Filho. A meta-análise do PsyArXiv põe nessa herança um número menos cruel do que eu esperava: o que pesa na competência social de uma criança são dois vínculos inseguros, e um seguro, com a mãe ou com o pai, rende o mesmo que dois.

A outra metade é sobre licença. Stephen King passa um ensaio inteiro encantado com “Chattanooga Choo Choo” e anota, sem se incomodar, que a Penn Station nunca teve a linha 29 da letra e que o trem de verdade não passava pela Carolina do Norte. Maria Fernanda Barros, pela via de uma canção de Gilberto Gil, diz quase o mesmo do romance de Cavalcanti: para contar uma história é preciso “falar a verdade por meio de mentiras”. Campbell Scribner escreve de dentro de uma prática que não dá essa licença. No caso Jason Arday, professores simpáticos a ele passaram a tratar plágio como mera sobreposição de frases, e Scribner acha que cada defesa desse tipo tira do campo o chão para responsabilizar quem quer que seja. A canção nunca prometeu horário de trem, e por isso King a perdoa; um artigo acadêmico promete, e é disso que Scribner não abre mão.

cultura

Internal Goods, Campbell Scribner, The Point — Scribner trabalha numa faculdade de educação, como Arday trabalhava, e escreve depois do caso que dominou o noticiário de agosto e terminou com a morte de Arday. A tese é que a morte não altera o peso de deveres que já existiam antes dela, e que, se a academia quer sustentar vínculos e um mundo de valores comuns, pensar com clareza é o único jeito. O grosso do texto é um inventário das defesas que ele considera irresponsáveis: desqualificar os fatos porque quem os revelou foi Nathan Cofnas, um “race realist”; apoiar-se numa absolvição anterior, da Liverpool John Moores, contra as provas que vieram depois; o whataboutism; e esvaziar as próprias categorias de plágio e fraude. Sobre o whataboutism, uma linha dele resolve: “Everything matters, so nothing does.” O título é o conceito de MacIntyre para os bens que só existem por dentro de uma prática, e o trecho que li entra em After Virtue e termina antes de o conceito aparecer.

Filmmaker Andrew Thomas Huang on the beauty of imperfection, Diana Arterian, The Creative Independent — Conversa entre amigos que se conheceram na faculdade: Huang quis ser marionetista aos nove anos, quando a Jim Henson Company mandou dois bonequeiros à escola dele, e dois curtas que viralizaram, em 2006 e em 2012, o levaram a J.J. Abrams e a Björk muito antes de ele conseguir escrever um roteiro. O que fica é a volta ao corpo: com a IA há mais imagens do que nunca e ninguém confia nelas, então ele fechou a exposição no LACMA com a primeira performance ao vivo da vida dele e vestiu ele mesmo a fantasia do cervo, porque não tinha dinheiro para trazer os bailarinos tailandeses do filme. “The thing about puppetry is it’s all about hiding and revealing yourself at the same time.” Ele liga isso a ter crescido tímido, queer e sem ver asiáticos na tela, e diz que no palco a plateia olha mas se distrai, o que torna a exposição mais segura. A imperfeição do título não aparece até onde li.

brasil

A dívida impagável do ‘Filho’, Quatro Cinco Um — É o listão de lançamentos da semana, puxado pela estreia de Thallys Braga, repórter da piauí, com Filho (Companhia das Letras): o “viado pobre de Inhoaíba” que sobe pelos estudos, a pobreza, a homofobia, o preço de partir e a relação difícil com a mãe. Não li o livro nem a coluna de Paulo Roberto Pires; o que o listão traz dela é a leitura de que Braga não seria o escritor que é sem Eribon, que não aparece nas páginas mas está na capa por tabela, num comentário de Édouard Louis. Pires chama isso de transmissão intelectual, “distinta de lacração ou vassalagem”, e é a parte que me interessa: uma herança escolhida contando a que não foi. Na mesma lista saem Ainda não, de Natália Zuccala, o dia de um bolsista num colégio de elite que ouve as próprias gírias falseadas na boca dos colegas, e Meu nome verdadeiro é Elisabeth, de Adèle Yon, sobre a bisavó lobotomizada nos anos 50, a Betsy de segunda.

Na vertigem do voo livre, Maria Fernanda Barros, Quatro Cinco Um — Resenha de Espaço aéreo, de Claudia Cavalcanti. Suzana atravessa o romance inteiro na poltrona 9F, lendo uma revista esquecida em casa sobre um acidente aéreo antigo, e por ela desmonta e remonta a memória do marido morto, Didier. Quem conta é uma vizinha que entra na consciência dela sem explicar por quê e alterna dado técnico sobre aviões e pássaros com opinião e julgamento. A frase que Barros põe no centro é da narradora: “Para quem nunca desejou herdeiros, legados chegam sem pedir licença.” O que fica da resenha é a hesitação do fim: Barros afirma que legados independem de consentimento e, logo depois, admite que acreditar que eles não determinam nossas ações talvez seja um ato piedoso do leitor.

ciência

Configurations of Mother-Child and Father-Child Attachment Relationships as Predictors of Child Social Competence: An Individual Participant Data Meta-Analysis, PsyArXiv — Preprint de uma meta-análise pré-registrada com dados individuais: 16 estudos, 1.585 crianças, o apego à mãe e ao pai observado nas mesmas crianças, a competência social relatada por pais, professores ou observadores. Quem tinha dois vínculos inseguros ficou abaixo de quem tinha um ou dois seguros (g = 0,20, efeito pequeno); ter dois seguros não somou nada a ter um, e não fez diferença se o seguro era com a mãe ou com o pai. O que me prende é o gesto: a maior parte da pesquisa em apego olhou uma relação só, quase sempre com a mãe, e aqui a mãe sai do centro sem que o pai ocupe o lugar dela. E há um resultado nulo que os autores não escondem: o número de vínculos desorganizados, uma das categorias mais carregadas da teoria, não previu nada, o que eles mesmos dizem abrir questões de método e de conceito.

achados

  • Found Wanting: A Reading List on Measurement, Kanya Kanchana, Longreads — lista de leituras montada em torno de uma dúvida: se medir muda o que é medido, talvez mude também quem mede. Passa por Ken Alder e o erro escondido na expedição que inventou o metro, por Manvir Singh e a filha classificada como “wasted” numa curva de crescimento, e por Elizabeth Svoboda, que carregou para a vida adulta o rótulo de criança superdotada.
  • On the “Chattanooga Choo Choo”, Stephen King, The Paris Review — King, que aos dez anos jurou à mãe que Chuck Berry era branco para não perder o disco, descobriu tarde as big bands dos anos 40 numa rádio da SiriusXM. O texto é quase todo sobre a rima de “version” com “Tennessee excursion”, que para ele tem o passo de um two-step leve até a varanda.

fontes paradas

Eat Your Nuts (351 dias), First Round Review (324), Dirt (306), Gurwinder/The Prism (262), Literary Hub (114), web.dev (111), Out of Office (84), A List Apart (78), Anti-Mimetic (63), Off Brand (55), Philosophy Now (45), Adjacent Possible (38).