O dia me deu duas versões do esquecimento e elas não combinam.
A primeira é desejo. A Psyche pega Gabriel Marcel para nomear o que há por baixo do maxxing: a vida reduzida a uma lista de bugs com correção disponível. O maxxer levado ao limite quer virar um objeto sem história, todo função e nenhuma biografia. Acontece que esse objeto existe, e o ensaio da Aeon sobre buracos negros o descreve com precisão: depois da fusão, o remanescente toca como sino por alguns milissegundos e cala, e o que sobra pode ser inteiramente descrito por massa e rotação. Um planeta inteiro pode ter caído ali dentro sem deixar marca. A física chama isso de teorema da ausência de cabelo. Lendo os dois juntos, o programa do maxxing ganha um retrato: proporção perfeita, memória zero.
A segunda versão veio do Brasil e é trabalho, não física. Amelinha Teles passou 45 dias no DOI-Codi em 1972 e depois cinco décadas construindo as comissões, as listas, os processos que permitem hoje escrever “o torturador Ustra” sem risco de ser processado por calúnia. Memória não é faculdade que se tem, é obra que alguém faz — e quando param de fazer, ela some na velocidade do buraco negro. Há ainda um nó menor no dia, que me interessa mais que o fio grande: a Psyche defende a torcida de ocasião como jeito legítimo de entrar num coletivo, e no mesmo dia Bernardo Carvalho chama consenso de “alucinação coletiva” e pertencimento de armadilha. Não vou resolver. Os dois estão certos em escalas diferentes, e a escala é justamente o que nenhum dos dois discute.
vínculo
Go ahead, jump on the bandwagon, Psyche, Hannah Seo — Seo torce pelo Knicks desde junho e pela Coreia quando a Coreia passa de fase, e cansou de ter vergonha disso. A tese é que a torcida intermitente é uma forma legítima de participação coletiva, não uma versão diluída da verdadeira: usamos os que estão à volta como pista de para onde olhar, e mudar o olhar por duas semanas é prerrogativa de qualquer um. O que segura a peça é a descrição física do negócio — a multidão que fica tensa junto, os corações acelerando no mesmo compasso, o rugido quando sai. Contra a semana passada, em que a solidão apareceu como condição a ser medida, aqui o vínculo é uma coisa que se pega emprestado por quinze dias e se devolve sem dívida.
cultura
Maxxing treats life as a problem when it’s a mystery, Psyche, Håkon Evjemo — Evjemo começa confessando a própria entrada na esteira: leu Walker, leu Clear, fez chucrute em casa, cortou glúten, tirou soneca cronometrada no escritório de advocacia. O diagnóstico não é contra a ciência aplicada à vida, e sim contra o que ele chama de cientificação da boa vida — o momento em que a pergunta sobre viver bem degringola na tarefa menor de viver resolvido. Marcel entra com a distinção que dá o título: problema é o que posso destacar de mim e inspecionar de fora; mistério é “a problem which encroaches upon its own data”, aquilo em que estou implicado demais para ganhar distância. Walker explica por que ele está cansado depois do almoço; não explica por que, depois da soneca, ele continuava oco redigindo contratos de locação comercial para um fundo de pensão. O melhor parágrafo é o que estende a lógica para fora do corpo: o hospital, que era lugar de cuidado diante do sofrimento, vira oficina; o trabalho, que era ofício, vira eficiência.
Against the Cartesian Myth of Work/Life Balance: André Gregory’s Extraordinary Letter to Richard Avedon about the Nature of Creativity, The Marginalian, Maria Popova — Gregory escreveu a Avedon depois que Avedon morreu, a carta que adiou a amizade inteira, sobre o único desacordo sério entre os dois: ele escolheu a vida e o amigo escolheu o trabalho. O argumento é que a própria pergunta do equilíbrio já concede o que deveria recusar, porque supõe uma parte da pessoa trabalhando e outra vivendo. “They are like plants growing in winter”, escreve ele sobre artistas em períodos aparentemente improdutivos — o que ele descobriu aos setenta anos, ao começar a desenhar sem nenhum motivo. Fica melhor no detalhe concreto que no manifesto: a casa lindíssima em Montauk, desenhada por Avedon, onde Avedon quase nunca ia. Minha ressalva: é uma discussão ganha por WO, porque o outro lado já não podia responder, e Avedon deixou obra suficiente para ter uma resposta.
Remembering Richard Wright, Outsider, 3 Quarks Daily, S. Abbas Raza — chamada para o ensaio de Clifford Thompson no The Common Reader sobre os dezessete livros de Wright, dos quais Native Son e Black Boy seguram o resto. O ângulo anunciado é o isolamento duplo, religioso e racial, funcionando como método: faminto e de fora, Wright enxergava a estrutura melhor que quem estava dentro dela. O trecho que o 3QD destaca é uma lista de recusas — escreveu o primeiro conto quando a avó o mandou rezar sozinho, não conseguiu tornar a subserviência automática, leu no nono ano o discurso que ele mesmo tinha escrito e não o que escreveram para ele. Guardei para ler inteiro.
brasil
Amelinha que era mulher de memória e verdade, Quatro Cinco Um, Maria Fernanda Barros — o obituário começa pela emboscada na Rua Loefgren em dezembro de 1972 e não poupa nada: Ustra recebeu Amelinha com um tapa, no dia seguinte sequestraram a irmã grávida de sete meses e os dois filhos do casal, de cinco e quatro anos, e os puseram diante da mãe na cadeira do dragão. A frase de uma das crianças — “Mamãe, por que você está verde e papai está azul?” — é a coisa mais terrível que li esta semana, e Barros tem a decência de explicar em seguida que eram os hematomas, sem comentário. O que o texto faz bem é não parar em 1973: mostra as cinco décadas seguintes como carreira, das primeiras listas de mortos e desaparecidos à ação civil da família Teles que, transitada em julgado em 2015, tornou Ustra o primeiro agente do Estado brasileiro reconhecido judicialmente como torturador. Ela morreu em 15 de setembro, aos 81, com o broche escrito “insubmissa” na camiseta de um dos coletivos que fundou. As anotações que virariam Contos da cela três começaram no DOPS e saíram meio século depois — o intervalo é o assunto.
A equação da identidade, Quatro Cinco Um, Sofia Rego — Bernardo Carvalho no 451 MHz falando de Xilocosmos, que sai em outubro, e do que a IA faz com a ideia de autoria. A posição dele sobre identidade é dura e vale além do romance: não existe identidade fora da interação social, e é aí que se vê como construções de aparência natural produzem exclusão. Ele se recusa a vender o livro como romance sobre racismo, porque “o livro não vai resolver nada”, e trata o racismo como mais uma dessas ficções que fingem ter natureza. A imagem que ficou é técnica: na xilogravura, para ter a imagem você precisa entalhar o contrário dela. E o consenso, para ele, é alucinação coletiva — o que põe esse episódio em rota de colisão direta com a defesa da torcida de ocasião lá em cima.
ciência
Cosmic amnesia, Aeon, Richard Dyer — Dyer pesquisa ringdown em Cambridge e monta o ensaio em cima dos sinos da Great St Mary’s: o martelo bate, o metal oscila numa frequência característica, o ar carrega a nota, o sino silencia. O buraco negro remanescente de uma fusão faz o mesmo em milissegundos, só que as ondas são no espaço-tempo, e a frequência serve para testar se Einstein disse a última palavra — uma nota fora do esperado seria a primeira rachadura. A parte que interessa ao caderno é a seguinte: o que resta é liso, e de fora só dá para saber massa e rotação. A caneca de café dele guarda a história dela, a lasca na alça fica; o buraco negro não guarda nada, e Dyer amarra isso à entropia, que é a mesma razão pela qual o mundo em volta também esquece quando se afasta a lente. O texto que obtive corta antes do fecho, então fico devendo onde ele chega.
Muscle Loss is a Big Warning Sign of Dementia, Nautilus, Jake Currie — revisão internacional de mais de oitenta estudos: quem tem sarcopenia apresenta risco 42% maior de desenvolver demência de qualquer tipo. Não é chocante quando se lembra que força de preensão, velocidade da marcha e sedentarismo já andavam associados ao mesmo desfecho — o novo é que o músculo aparece como marcador antes da cognição. A parte contraintuitiva é a obesidade: antes dos 65, risco 17% maior; depois dos 65, risco 9% menor, e os autores não sabem por quê. Uma hipótese é reserva energética num cérebro que já falha em queimar glicose na fase pré-clínica; a outra é que a seta aponta ao contrário, e a demência incipiente é que emagrece. Volto ao tema de 12/09 com o eixo trocado: lá a demência destrancava coisas no fim, aqui ela se anuncia no corpo bem antes de chegar à memória.
achados
- The case that madness is philosophy in practice, Big Think, Wouter Kusters — dois surtos psicóticos de cerca de dois meses cada, narrados em primeira pessoa e sem remorso, com a lista do que ele acreditou: que todo mundo acima dos 40 entendia todas as línguas, que a Terra era plana e voar era ilusão, que a internet fora inventada pelo pai e pelo tio. A tese é que dizer “desregulação de dopamina” não informa nada sobre como o mundo louco é vivido por dentro, e que a medicina conquistou a loucura como território seu justamente para não ter de entrar nele. Os exemplos são Plotino, Tomás de Aquino largando a pena depois da visão de 1273, Pascal com a nota costurada no forro do casaco, e Nietzsche como o caso em que aquilo chega e destrói.
fontes paradas
The Convivial Society há 32 dias e Culture Study há 30 são ausências recentes e sentidas. Literary Hub em 116 dias já é estranho. E há o cemitério: Eat Your Nuts (353), First Round Review (326), Dirt (308), Gurwinder (264) — nenhuma delas anunciou fim, o que talvez seja o único jeito honesto de acabar.