A resposta pronta — do Google, do ChatGPT, do assistente de voz — leva embora quem só queria a resposta. Hoje essa perda aparece com sinal trocado em dois lugares. Na Atlantic, caem as visitas que vêm do Google e sobem os assinantes que vêm de lá, porque quem sumiu era quem não ia assinar. Na Wikipedia, o tráfego humano cai cerca de 8% ao ano, e aí está o problema inteiro: quem chegava só pela resposta era também quem via o erro no verbete e corrigia. A diferença não está no tamanho da queda. Está em onde acontece a conversão. Quando a coisa de que você precisa do visitante ainda acontece com menos visitas, a queda funciona como filtro. Quando só acontece com ele dentro da sua página, a queda come o produto.
O outro lado do mesmo movimento é o cliente que monta a interface em casa. A Ploomes perdeu clientes para CRM feito com vibe coding e viu parte deles voltar quando o sistema quebrou e não havia quem consertasse. Teresa Torres responde a quem já montou o próprio pipeline com Claude com uma conta: 4 evals e 16 variantes de experimento para uma única reclamação. Pagani, da Ploomes, diz que o que fica de pé é o que está atrás da tela, e a chamada da Stratechery diz que a Salesforce já largou a UI como moat. Minha leitura: quando a tela vira de outro (do agente, do Google, do cliente), o que se vende é aquilo que dá trabalho manter atrás dela. E o texto da Commoncog freia o pânico: nos cinco casos que analisa, ninguém morreu por teimosia. Refazer o roadmap inteiro, como a Ploomes fez, é necessário e não garante nada.
produto e growth
a Ploomes perdeu cliente para o vibe coding, e parte voltou — Clientes da Ploomes montaram o próprio CRM com vibe coding e cancelaram. Alguns voltaram porque, quando o sistema quebra, não há ninguém do outro lado. O CEO Matheus Pagani não trata isso como alívio: diz que o CRM de funil, cadastro, tarefas e histórico acabou e que o valor passa para dados e contexto. Na gestão, a empresa trocou o planejamento de quatro anos por ciclos de três meses e refez quase 100% do roadmap no meio do ano. Para quem vende SaaS, o critério de churn que fica é o tempo: se configurar demora, o cliente faz a conta e decide que vale mais fazer em casa.
Teresa Torres: 4 evals e 16 variantes para uma reclamação — Uma cliente beta da Vistaly recebeu a opportunity solution tree gerada por IA com um galho achatado, cheio de oportunidades sem hierarquia, e quis um botão de “limpar”. Teresa Torres preferiu achar a causa, e isso levou três semanas, 4 evals novos e 16 variantes de experimento. O trecho que li mostra o começo do método: um eval por code assertion que mede a forma da árvore (filhos por nó, profundidade) e um LLM-as-a-judge que procura agrupamentos perdidos, calibrado contra rótulos feitos à mão. Esse juiz teve recall de 100% e uma specificity que o próprio texto chama de péssima. O texto do dossiê para aí, então não sei quais variantes resolveram. O argumento de produto, porém, já está dado: o que separa a ferramenta do pipeline caseiro é a calibragem, não o prompt.
marca e ip
a Wikipedia contra a answer engine — Pelos dados da Ahrefs citados na entrevista, o ChatGPT cita a Wikipedia mais que quase qualquer outra fonte, atrás só do Reddit. Enquanto isso, o tráfego humano do site cai cerca de 8% ao ano, e o de bots sobe a ponto de pesar nos servidores. Zach McCune, que chefia marca global na Wikimedia Foundation, descreve a Wikipedia como mais visível do que nunca e menos conhecida, com queda de awareness e de simpatia nas medições de brand health. O risco não é receita, é editor: a correção acontece no site, e menos gente chegando é menos gente corrigindo. A resposta vem em duas frentes. Uma é a campanha de 25 anos da agência Kin, montada com screenshots de cerca de 700 páginas para pôr os editores na frente da página. A outra é uma API enterprise em tempo real, para que as empresas de LLM paguem pelo uso e a conta não fique só com os 8 milhões de doadores, que dão em média US$ 11.
New Balance processa a Decathlon pelo logo da Kiprun — A ação foi protocolada na terça, 15, na corte federal de Massachusetts. Segundo a New Balance, o “K” angular da Kiprun, espelhado em oito modelos vendidos nos EUA, se lê como o seu “N”. O pedido inclui parar de usar o símbolo, recolher e destruir os tênis e pagar indenização. A New Balance procurou a Decathlon em janeiro, e a resposta foi que o desenho é um K. A lição que eu tiro para quem cria marca: o logo tem que ser testado do jeito que vai aparecer no produto, espelhado e de lado, não só no arquivo. A New Balance também tem histórico de brigar na Justiça pelo N (US$ 1,5 milhão numa corte chinesa em 2017, a New Bunren em 2019, a Michael Kors em 2021). Na minha leitura, essa constância faz parte do brand equity em que a empresa diz ter investido centenas de milhões de dólares.
mídia e atenção
The Atlantic ganha mais assinante do Google com menos visita — Nicholas Thompson, CEO da revista, contou ao podcast Channels que as visitas vindas do Google caem enquanto os assinantes vindos de lá sobem: o Google está mandando menos gente que não ia assinar. Para um negócio de assinatura (1,6 milhão de assinantes pagos, lucro desde 2024), é a prova de que visita e receita já não andam juntas. Com a IA, dois contratos mostram o desenho. O da OpenAI tem cláusulas sobre quanto o modelo pode resumir, se pode citar um autor e se pode imitar o estilo dele. O da Parallel Web Systems, de Parag Agrawal, é por micropagamento e paga mais pelo conteúdo difícil de substituir ou usado em trabalho de agente de alto valor, em vez de taxa fixa por acesso. O acordo com a Parallel nasceu quando Thompson percebeu que a maior parte do tráfego saindo do próprio computador já vinha dos seus agentes. Já o tráfego que o ChatGPT devolve à Atlantic foi, nas palavras do CEO, uma surpresa de tão pequeno.
Design Anthology e o impresso como vantagem — A revista nasceu em 2014, em Hong Kong, para cobrir o design da Ásia-Pacífico como região. Hoje tem impresso, assinatura digital, eventos, conteúdo de marca e um canal no YouTube com mais de 500 mil inscritos. A decisão declarada é não correr atrás de pageview: proteger a escassez e vender anúncio por relação de longo prazo, não por tamanho de audiência. O leitor fica entre o B2B (arquitetos, designers) e o consumidor rico que o anunciante de luxo quer, e o YouTube serve de porta de entrada para o resto. A parte que explica por que o impresso é o centro fica depois do corte do dossiê: o título promete esse argumento, e eu não li.
mercado e capital
Kinea: o desconto não está nas ações, está nos juros — O relatório desmonta o “a bolsa está barata” com um mecanismo. O mercado brasileiro negocia a cerca de 8 vezes o lucro projetado para 12 meses, contra 10 vezes no passado, mas o prêmio de risco sobre o título público está em torno de 4%, abaixo da média histórica de 5%. Ou seja: o múltiplo baixo vem da taxa livre de risco alta, não de um prêmio generoso para quem corre risco. A outra metade da explicação é o lucro. Em dólar, o lucro das empresas abertas está 36% abaixo de 2010. Em dez anos, o lucro nominal das empresas domésticas cresceu 3,5% ao ano, abaixo do IPCA médio de 5%, enquanto o das produtoras de commodities cresceu 16,5% ao ano. O relatório termina numa sugestão de carteira, que fica fora deste caderno. O que serve para quem constrói aqui é o mecanismo: múltiplo local comprimido é o preço do custo de capital e de um lucro que não compõe, não uma pechincha.
leitura
Commoncog: como lidar com mudança disruptiva — Cedric Chin comenta cinco casos encomendados para a série: a Swatch na crise do quartzo, a Amazon no estouro das pontocom, a Ford na crise financeira global, a Blockbuster contra a Netflix e a morte da BlackBerry. O primeiro ponto desmonta a explicação que todo mundo tem pronta, a de que quem é disruptado morre por teimosia. Nos cinco casos, ninguém morreu assim. Omega e até Rolex lançaram relógios de quartzo, a Blockbuster quase matou a Netflix com a operação online, e Mike Lazaridis, co-CEO da RIM, desmontou um iPhone poucos dias depois do lançamento. O que muda para quem constrói produto é o diagnóstico: “não ficar para trás” não é plano, porque as empresas que morreram também não ficaram paradas. O texto anuncia três pontos, o trecho do dossiê só chega ao primeiro, e as reações a cada caso são só para membros.
quem escreveu
Ben Thompson: Salesforce, agentes como UI e a corrida para o headless — A análise de hoje é só para assinantes, e o que li foi a chamada: a Salesforce está abandonando a UI como moat, e Ben Thompson acha a decisão muito esperta porque a UI está sumindo para todo mundo. O título fala em agentes como interface e numa corrida para o headless, mas o argumento em si eu não li. Registro a coincidência: no mesmo dia, Matheus Pagani, da Ploomes, dizia no Brasil que o que fica de pé no CRM é o que está atrás da tela.
fontes paradas
First Round Review (324 dias), Gurwinder (262), Calculated Risk (248), Elad Gil (149), Y Combinator Blog (92), Anti-Mimetic (63), Adjacent Possible (38), Kyla Scanlon (34), Sherwood News e Collab Fund (30 cada), Granted (19).