Sêneca tem uma ordem para a amizade: pensar muito antes de admitir alguém e, depois de admitido, confiar como se confia em si mesmo. Quem inverte — admite primeiro e julga depois — confundiu os deveres. Lida no mesmo dia que o resto, a carta parece servir só para o vínculo que se escolhe, porque nos outros a ordem já vem trocada. A rede de mulheres de duas paróquias rurais do Equador faz parto e puerpério onde o Estado não aparece, e é a mesma que depois vigia o que cada uma faz com o próprio corpo. Betsy casou em 1940, foi internada pelo marido e pelo pai dez anos depois, e a família passou décadas dizendo dela uma palavra só. Mary Austin é o caso raro de vínculo que perdeu a premissa e manteve a confiança: soube que não haveria casamento por um balançar de cabeça diante de um vestido, e ficou do lado de Freddie Mercury até o fim.
O ensaio em colagem de River Lerner dá a imagem para isso tudo: represa e espartilho funcionam pela pressão entre paredes, e quem continua dentro de um vínculo costuma pagar guardando metade de si fora da vista. A resenha de Meu nome verdadeiro é Elisabeth diz o mesmo sem metáfora nenhuma, quando lembra que a lobotomia queria menos curar a paciente do que deixá-la apta a continuar no ambiente de onde vinha. Os dois textos que sobram tratam do que vem antes: querer alguma coisa e ter tempo para notar o outro. Os pacientes de Robin Kirman não conseguem dizer o que querem; o menino que Natalia Kucirkova observa num aeroporto vê o choro de um personagem virar sorriso mais rápido do que dá para piscar. Sêneca pedia muito tempo para julgar um amigo, e Kucirkova lembra que, na primeira infância, até perceber que o outro sente diferente leva tempo.
vínculo
The Extraordinary Untold Story of Freddie Mercury: Mary Austin on Her Best Friend–and Love of Her Life, Simon Hattenstone, via Longreads — Mary Austin morava havia quatro anos com Freddie Mercury quando ele, com dificuldade, disse que achava ser bissexual. Ela respondeu que achava que ele era gay, e ele não discutiu. O que ela sentiu foi alívio, porque já não tinha certeza de que os dois iam na mesma direção. Ele deixou para ela a casa, boa parte da fortuna e as coisas mais pessoais, uma herança que ela passou a vida administrando com lealdade e discrição. Li o trecho que a Longreads puxou, e a frase que fica é a do vestido que ele desaconselhou com a cabeça: “So I knew from there on …”
Seneca on True and False Friendship, Maria Popova, The Marginalian — Popova reúne trechos das cartas de Sêneca a Lucílio em que ele separa a amizade do negócio. A ordem é julgar antes e confiar depois; quem escolhe um amigo pelo que ele pode render arranjou um amigo de tempo bom, que some ao primeiro barulho da corrente. A bajulação imita a amizade e ganha dela na corrida, porque encontra os ouvidos já abertos. Acho a régua final quase inutilizável de tão alta: amigo é alguém por quem se pode morrer ou seguir para o exílio. A moldura sobre a era dos likes é o que menos me interessa; a carta aguenta sozinha, e a frase que fica é “He who begins to be your friend because it pays will also cease because it pays.”
Therapy Used to Be Hot, Robin Kirman na LARB, via 3 Quarks Daily — O 3QD recortou só a abertura, então isto é chamada. Kirman atende dois jovens, Kessa e Anthony, que não poderiam parecer mais diferentes e somam quase todos os sintomas da crise de saúde mental da juventude. O que têm em comum é que nenhum dos dois consegue citar uma coisa que faça por gosto, sem obrigação ou compulsão, e nenhum sabe responder “What do you want?” — o que querem de fato, e não o que acham que deveriam querer. O título sugere uma tese sobre a terapia ter perdido o prestígio, e essa parte eu não li. Do trecho, fica a imagem das sessões em silêncio, com “the muted voice of desire grown too faint to guide them”.
cultura
The bombarding of childhood, Natalia Kucirkova, Aeon — Kucirkova, que pesquisa mídia infantil, diz que se mede pouco uma coisa que talvez pese tanto quanto minutos de tela e qualidade do conteúdo: o ritmo, o tempo que um desenho, um jogo ou um app dá para a criança fazer sentido do que vê. Um programa pode ter boa lição e andar rápido demais para ela assentar; em Paw Patrol o resgate é tão eficiente que a urgência passa por cima do cuidado com o outro, e Prehistoric Planet, com a voz de Attenborough e o zoom demorado, aparece como exceção. Na lista de recursos que encurtam o tempo entra também a oferta de IA para resumir um texto longo, que soa como ajuda e carrega uma filosofia. A página que tenho corta antes da parte sobre o que fazer. A frase que fica: “The clock records the same duration but the child does not live the same time.”
The Art of Holding Things Together by Holding Them Apart, River Lerner, 3 Quarks Daily — Ensaio em colagem que parte de uma poesia comum à represa e ao espartilho: a pressão entre forças opostas é o que dá função aos dois. Lerner leva isso para a pessoa, que se faz tanto pelo que tira quanto pelo que acrescenta, e cuja manutenção precisa ficar invisível, em parte por consideração a quem não tolera ficar perto do sofrimento. Lerner atende em psiquiatria, e o trecho mais duro é sobre os pacientes de ambulatório, para quem funcionar deixa de ser sinal de saúde e vira exigência. Depois vêm Omelas, The Lottery e The Substance, em que Sue precisa tirar líquido de Elisa todo dia para existir, e esse cuidado feito com nojo continua sendo cuidado. A versão que chegou para no meio; a frase que fica é a das mil concessões, mentiras brancas e silêncios, “until we become unrecognizable but palatable.”
brasil
Me chame pelo meu nome, Maria Fernanda Barros, Quatro Cinco Um — A resenha é de Meu nome verdadeiro é Elisabeth, de Adèle Yon, mistura de romance, memória e ensaio sobre a bisavó de quem a família só dizia uma coisa: era esquizofrênica. Numa viagem de carro de Lisboa a Paris, no confinamento de 2020, Yon diz à avó uma palavra, Betsy, e sai atrás de duas respostas: por que todos se calam e se a doença é hereditária — medo que outros parentes, descobre-se depois, carregavam calados nos verões na Bretanha. Betsy teve seis filhos em sete anos, em parte porque o marido seguia um médico que achava a gravidez boa para a saúde mental dela; foi internada em 1950 pelo marido e pelo pai, passou por eletrochoque, coma insulínico e lobotomia, viveu dezessete anos em hospital psiquiátrico e morreu em 1990. Nas cartas de antes do casamento, pedia ao noivo que a aceitasse como era: “uma pessoa que precisa de muito espaço, física e moralmente; não posso viver em ambiente fechado.” Barros aproxima o caso do de Adelina Gomes, nascida no mesmo 1916, que em 1946 começou a frequentar os ateliês de Nise da Silveira no Hospital Pedro II enquanto Betsy levava eletrochoque na França. No sábado foi a demência que destrancou um nome numa avó; aqui é a família inteira que o mantém trancado.
ciência
Sororidad ambivalente y cuidado reproductivo en el medio rural: un estudio cualitativo en las parroquias La América y La Unión, cantón Jipijapa, Ecuador, Aguilar Cano, Alonso Muñiz, Loor Alvarado e Vélez Rodríguez — Estudo qualitativo com doze participantes em duas paróquias rurais do Equador, feito com entrevistas e narrativas têxteis; só li o resumo, que não explica o que eram essas narrativas. Onde falta serviço público de saúde, a rede informal de mulheres é a infraestrutura: parto, puerpério, informação sobre contracepção, apoio na gravidez precoce. A mesma rede vigia, julga e repete as regras patriarcais sobre sexo, contracepção e o corpo das outras, e a medicina formal, para quem já teve muitos filhos, chega sobretudo como esterilização tardia. O saber que circula é recente: foi a geração adulta que começou a quebrar o silêncio sobre a menarca com as filhas. O estudo lê a ambivalência como efeito de barreiras de gênero e da ausência do Estado, e não como falha de solidariedade. Lido depois de Betsy, me incomoda ver a medicina entrar de novo pelo lado da gravidez: lá receitando mais uma, aqui chegando depois de muitas, com bisturi.
achados
You Have to Ask Questions: Svetlana Alexievich, Unlocked, The Paris Review — A revista abriu do arquivo o trecho de Voices from Chernobyl publicado em 2004, para acompanhar a entrevista nova de Elena Kostyuchenko com Alexievich. O link vale pela admissão de Alexievich de que às vezes funde a história de duas pessoas numa só, para que nenhuma seja identificada, e continua chamando isso de não ficção.
fontes paradas
Eat Your Nuts, 349 dias; First Round Review, 322; Dirt, 304; Gurwinder (The Prism), 260; Literary Hub, 112; web.dev, 109; Out of Office, 82; A List Apart, 76; Anti-Mimetic (Luke Burgis), 61; Off Brand, 53; Philosophy Now, 43; Adjacent Possible (Steven Johnson), 36. A Literary Hub publica todo dia, então 112 dias sem nada parece mais feed quebrado do que revista parada.