Quase tudo que li hoje fica do lado do intervalo. Maria Popova usa o ma japonês (a parte sem tinta de um biombo, a pausa numa conversa) como remédio contra a certeza. Lalai Persson sai da casa de um guru em Berlim com mais perguntas do que levou e percebe que a IA está desacostumando ela a esperar. Benedict Lombe escreve sobre amor sem dar resposta e diz que saber que alguém é a sua pessoa inclui não saber. Juntos, esses textos dariam um elogio fácil do vazio.
Os dois textos que vieram pela 3 Quarks Daily atrapalham essa facilidade, e é por causa deles que o dia valeu. Em Beauty And No-Thingness, um poeta lê um soneto de Mark DeLong e aponta ali um no-thing: a palavra “beauty” ocupando o lugar de uma imagem que não chegou. E na abertura do texto de Lorna Finlayson sobre Habermas, a declaração que ele assinou com três colegas em 2023 anuncia “some principles that should not be disputed” e não julga justamente o que pesava. Minha leitura: o ma só funciona porque tem moldura, e a parte vazia do biombo só quer dizer alguma coisa porque o resto foi pintado. Um verso com uma palavra no lugar da imagem e uma declaração que não diz o que viu também têm espaço vazio. De longe, as três coisas se parecem.
cultura
How to Break Free from the Tyranny of Certainty: The Japanese Concept of “Ma”, Maria Popova no The Marginalian — Parte da ideia de Szymborska de que a inspiração nasce de um não-sei contínuo e chega ao ma, que Ann Tashi Slater descreve em Traveling in Bardo como intervalo ou abertura, no espaço e no tempo: a área sem tinta do biombo, o silêncio na conversa, a pausa entre duas ondas. A tese cabe numa frase do texto: “Certainty is the dominant addiction of the modern mind.” O trecho mais concreto vem de Kengo Kuma, para quem o vazio do espaço tradicional japonês é onde o corpo sente mudar a luz, o cheiro e a temperatura. O que guardo é o ideograma, 間: portão e sol, luz passando pela porta, a mesma luz indireta que Tanizaki elogiou em In Praise of Shadows. Quando Popova leva essa luz até a dupla fenda e a consciência, a imagem fica maior que o pensamento (opinião minha).
Beauty And No-Thingness, Mark DeLong na 3 Quarks Daily — DeLong mandou uma sequência de sonetos para um poeta que acompanhava, e o poeta empacou no último verso do segundo: “‘beauty’s hidden folds’ is a no-thing”, uma metáfora que não se consegue tocar. DeLong aceita metade da crítica. Admite que não sabe o que é beleza, mas desconfia que ela seja mais que um tapa-buraco para alguma coisa melhor, e diz que, com os techbros tentando enfiar gosto em modelo de IA, é hora de defendê-la como algo que não se reduz a dado. O caminho passa por Old in Art School, de Nell Painter, a historiadora de Princeton que terminou o mestrado em arte perto dos setenta e descobriu que os olhos do século XX eram seu maior handicap. Depois chega a All the Beauty in the World, de Patrick Bringley, que largou a New Yorker para ser guarda do Metropolitan depois da morte do irmão, e a cena que dá corpo a tudo é a mãe de Bringley chorando diante de uma Pietà no museu de Filadélfia. Li até o primeiro dia de Bringley no Met, então não sei aonde DeLong leva a beleza.
Normativity from the Standpoint of Its Victims, Lorna Finlayson na Boston Review, via 3 Quarks Daily — A 3QD só reproduz a abertura, então isto é uma chamada. Habermas morreu em março, aos 96, e Finlayson começa pelo último gesto político dele: Principles of Solidarity, assinado com três colegas da rede Normative Orders cinco semanas depois do início da ofensiva de Israel em Gaza. A solidariedade não era com as vítimas do que Finlayson chama de genocídio, e sim com Israel e com os judeus na Alemanha; a retaliação estava justificada em princípio, desde que proporcional, e o texto não arriscou dizer se a proporção era respeitada quando os mortos já passavam de onze mil. Segundo Finlayson, a declaração afirmava sem argumento que “the standards of judgment slip completely when genocidal intentions are attributed to Israel’s actions”. Para o filósofo da força do melhor argumento, é um jeito estranho de sair de cena. O título promete ler a teoria a partir de quem ela deixa de fora, e se Finlayson trata o episódio como desvio ou como consequência está no resto do ensaio, que ainda não li.
Playwright Benedict Lombe on understanding who you are, entrevista de Yang Shi no The Creative Independent — Shifters vai e volta entre memória e presente. Lombe conta que o ponto de partida foi a Kalûnga Line, a linha entre o mundo natural e o sobrenatural, entre o corpo e a alma, e a vontade de não ter as respostas. Lombe viu Before Sunset antes de Before Sunrise, sem saber que existia um primeiro filme, e acha que isso marcou a peça: o público conhece Dre e Des adultos e preenche sozinho os dezesseis anos entre o último encontro e o reencontro. Sobre saber que alguém é a sua pessoa, a resposta vale a entrevista inteira: “The thing about knowing that somebody is your person is you also don’t know, right?” A outra metade da conversa é sobre especificidade: uma história de amor negra britânica, com personagens congoleses e nigerianos que podem só viver e se apaixonar, coisa que as narrativas sobre congoleses, presas à luta e à opressão, quase nunca deixam.
brasil
Quanto tempo dura uma pergunta?, Lalai Persson na Espiral — Ela ganhou de aniversário uma consulta com um guru em Berlim, levou uma lista de incertezas e saiu com perguntas novas. A principal trocou o “se” pelo “como” (não se ela pertence à cidade, mas como pertence), e ela passou mais de uma hora andando pela cidade para absorver. Num debate sobre quem molda a cultura na era da IA generativa, Anan Fries lembrou que a máquina passou a ocupar o lugar de amigos, professores, terapeutas, tarô e oráculos, e Persson pensou no guru: foi uma hora e meia para ouvir as próprias perguntas, tempo que aquela IA não dá a ninguém. Depois vem IS YOUR TIME, de Ryuichi Sakamoto e Shiro Takatani, o piano de uma escola de Miyagi deformado pelo tsunami de 2011, que Sakamoto não quis restaurar e que toca sozinho quando a Terra se move em algum lugar. “Penso no quanto o uso da inteligência artificial está me acostumando rápido demais à ideia de que tudo pode ser respondido agora.” A manchete daqui no dia 6 dizia que o texto ficou de graça e entender alguém continua caro. Persson dá esse preço em horas, e a pergunta do título continua sem número.
achados
Penchants of the polymaths, Mariam Sabri na Aeon — Depois de quinze anos ensinando artes liberais no Paquistão, Sabri usa quatro polímatas da ciência islâmica (al-Biruni, Alhazen, Avicena e al-Khwarizmi) contra uma universidade que só fala em empregabilidade, e argumenta que a polimatia vem do próprio mundo muçulmano, não do Norte global. Cada vida vira lição, o que cansa. Vale pelas histórias: al-Biruni percebeu que o sextante gigante de al-Khujandi envergava porque tinha construído os próprios sextantes com quase nada, e Alhazen se fingiu de louco para o califa quando viu que não dava para represar o Nilo.
fontes paradas
Eat Your Nuts (348 dias), First Round Review (321), Dirt (303), Gurwinder (259), Literary Hub (111), web.dev (108), Out of Office (81), A List Apart (75), Anti-Mimetic (60), Off Brand (52), Philosophy Now (42), Adjacent Possible (35).