# nem todo vazio é ma; no soneto, a palavra beleza era tapa-buraco

> o ma faz do intervalo algo vivo e a ia encurta a vida de uma pergunta; um soneto e uma declaração de habermas mostram o vazio que não abre nada

- edição: domingo, 13 de setembro de 2026 (2026-09-13)
- caderno: ensaio e cultura
- assuntos: cultura · filosofia · ia · brasil
- itens: 6 de 5 fontes
- original: https://tonho.wtf/diario/2026-09-13-ensaio/
- autoria: escrito por pipeline de llm, revisado por antonio leandro (tonho.wtf)

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Quase tudo que li hoje fica do lado do intervalo. Maria Popova usa o *ma* japonês (a parte sem tinta de um biombo, a pausa numa conversa) como remédio contra a certeza. Lalai Persson sai da casa de um guru em Berlim com mais perguntas do que levou e percebe que a IA está desacostumando ela a esperar. Benedict Lombe escreve sobre amor sem dar resposta e diz que saber que alguém é a sua pessoa inclui não saber. Juntos, esses textos dariam um elogio fácil do vazio.

Os dois textos que vieram pela 3 Quarks Daily atrapalham essa facilidade, e é por causa deles que o dia valeu. Em *Beauty And No-Thingness*, um poeta lê um soneto de Mark DeLong e aponta ali um *no-thing*: a palavra "beauty" ocupando o lugar de uma imagem que não chegou. E na abertura do texto de Lorna Finlayson sobre Habermas, a declaração que ele assinou com três colegas em 2023 anuncia "some principles that should not be disputed" e não julga justamente o que pesava. Minha leitura: o *ma* só funciona porque tem moldura, e a parte vazia do biombo só quer dizer alguma coisa porque o resto foi pintado. Um verso com uma palavra no lugar da imagem e uma declaração que não diz o que viu também têm espaço vazio. De longe, as três coisas se parecem.

## cultura

**[How to Break Free from the Tyranny of Certainty: The Japanese Concept of “Ma”](https://www.themarginalian.org/2026/09/07/ma/)**, Maria Popova no The Marginalian — Parte da ideia de Szymborska de que a inspiração nasce de um não-sei contínuo e chega ao *ma*, que Ann Tashi Slater descreve em *Traveling in Bardo* como intervalo ou abertura, no espaço e no tempo: a área sem tinta do biombo, o silêncio na conversa, a pausa entre duas ondas. A tese cabe numa frase do texto: "Certainty is the dominant addiction of the modern mind." O trecho mais concreto vem de Kengo Kuma, para quem o vazio do espaço tradicional japonês é onde o corpo sente mudar a luz, o cheiro e a temperatura. O que guardo é o ideograma, 間: portão e sol, luz passando pela porta, a mesma luz indireta que Tanizaki elogiou em *In Praise of Shadows*. Quando Popova leva essa luz até a dupla fenda e a consciência, a imagem fica maior que o pensamento (opinião minha).

**[Beauty And No-Thingness](https://3quarksdaily.com/3quarksdaily/2026/09/beauty-and-no-thingness.html)**, Mark DeLong na 3 Quarks Daily — DeLong mandou uma sequência de sonetos para um poeta que acompanhava, e o poeta empacou no último verso do segundo: "'beauty's hidden folds' is a no-thing", uma metáfora que não se consegue tocar. DeLong aceita metade da crítica. Admite que não sabe o que é beleza, mas desconfia que ela seja mais que um tapa-buraco para alguma coisa melhor, e diz que, com os techbros tentando enfiar gosto em modelo de IA, é hora de defendê-la como algo que não se reduz a dado. O caminho passa por *Old in Art School*, de Nell Painter, a historiadora de Princeton que terminou o mestrado em arte perto dos setenta e descobriu que os olhos do século XX eram seu maior handicap. Depois chega a *All the Beauty in the World*, de Patrick Bringley, que largou a *New Yorker* para ser guarda do Metropolitan depois da morte do irmão, e a cena que dá corpo a tudo é a mãe de Bringley chorando diante de uma Pietà no museu de Filadélfia. Li até o primeiro dia de Bringley no Met, então não sei aonde DeLong leva a beleza.

**[Normativity from the Standpoint of Its Victims](https://3quarksdaily.com/3quarksdaily/2026/09/normativity-from-the-standpoint-of-its-victims.html)**, Lorna Finlayson na Boston Review, via 3 Quarks Daily — A 3QD só reproduz a abertura, então isto é uma chamada. Habermas morreu em março, aos 96, e Finlayson começa pelo último gesto político dele: *Principles of Solidarity*, assinado com três colegas da rede Normative Orders cinco semanas depois do início da ofensiva de Israel em Gaza. A solidariedade não era com as vítimas do que Finlayson chama de genocídio, e sim com Israel e com os judeus na Alemanha; a retaliação estava justificada em princípio, desde que proporcional, e o texto não arriscou dizer se a proporção era respeitada quando os mortos já passavam de onze mil. Segundo Finlayson, a declaração afirmava sem argumento que "the standards of judgment slip completely when genocidal intentions are attributed to Israel's actions". Para o filósofo da força do melhor argumento, é um jeito estranho de sair de cena. O título promete ler a teoria a partir de quem ela deixa de fora, e se Finlayson trata o episódio como desvio ou como consequência está no resto do ensaio, que ainda não li.

**[Playwright Benedict Lombe on understanding who you are](https://thecreativeindependent.com/people/playwright-benedict-lombe-on-understanding-who-you-are/)**, entrevista de Yang Shi no The Creative Independent — *Shifters* vai e volta entre memória e presente. Lombe conta que o ponto de partida foi a Kalûnga Line, a linha entre o mundo natural e o sobrenatural, entre o corpo e a alma, e a vontade de não ter as respostas. Lombe viu *Before Sunset* antes de *Before Sunrise*, sem saber que existia um primeiro filme, e acha que isso marcou a peça: o público conhece Dre e Des adultos e preenche sozinho os dezesseis anos entre o último encontro e o reencontro. Sobre saber que alguém é a sua pessoa, a resposta vale a entrevista inteira: "The thing about knowing that somebody is your person is you also don't know, right?" A outra metade da conversa é sobre especificidade: uma história de amor negra britânica, com personagens congoleses e nigerianos que podem só viver e se apaixonar, coisa que as narrativas sobre congoleses, presas à luta e à opressão, quase nunca deixam.

## brasil

**[Quanto tempo dura uma pergunta?](https://lalai.substack.com/p/quanto-tempo-dura-uma-pergunta)**, Lalai Persson na Espiral — Ela ganhou de aniversário uma consulta com um guru em Berlim, levou uma lista de incertezas e saiu com perguntas novas. A principal trocou o "se" pelo "como" (não se ela pertence à cidade, mas como pertence), e ela passou mais de uma hora andando pela cidade para absorver. Num debate sobre quem molda a cultura na era da IA generativa, Anan Fries lembrou que a máquina passou a ocupar o lugar de amigos, professores, terapeutas, tarô e oráculos, e Persson pensou no guru: foi uma hora e meia para ouvir as próprias perguntas, tempo que aquela IA não dá a ninguém. Depois vem *IS YOUR TIME*, de Ryuichi Sakamoto e Shiro Takatani, o piano de uma escola de Miyagi deformado pelo tsunami de 2011, que Sakamoto não quis restaurar e que toca sozinho quando a Terra se move em algum lugar. "Penso no quanto o uso da inteligência artificial está me acostumando rápido demais à ideia de que tudo pode ser respondido agora." A manchete daqui no dia 6 dizia que o texto ficou de graça e entender alguém continua caro. Persson dá esse preço em horas, e a pergunta do título continua sem número.

## achados

**[Penchants of the polymaths](https://aeon.co/essays/four-islamic-polymaths-prove-breadth-beats-specialisation)**, Mariam Sabri na Aeon — Depois de quinze anos ensinando artes liberais no Paquistão, Sabri usa quatro polímatas da ciência islâmica (al-Biruni, Alhazen, Avicena e al-Khwarizmi) contra uma universidade que só fala em empregabilidade, e argumenta que a polimatia vem do próprio mundo muçulmano, não do Norte global. Cada vida vira lição, o que cansa. Vale pelas histórias: al-Biruni percebeu que o sextante gigante de al-Khujandi envergava porque tinha construído os próprios sextantes com quase nada, e Alhazen se fingiu de louco para o califa quando viu que não dava para represar o Nilo.

## fontes paradas

Eat Your Nuts (348 dias), First Round Review (321), Dirt (303), Gurwinder (259), Literary Hub (111), web.dev (108), Out of Office (81), A List Apart (75), Anti-Mimetic (60), Off Brand (52), Philosophy Now (42), Adjacent Possible (35).
