O que os textos de hoje têm em comum não é assunto, é uma distância: a que separa querer mudar de conseguir mudar. Phillips diz que a ambivalência não é fraqueza do desejo, é a forma dele. A impaciência sai da ficha do caráter e entra na das emoções, o que muda quem responde por não saber esperar. Um padre leva décadas para juntar o que é com onde reza. E quem trabalha com conhecimento perdeu menos o salário do que a fé no ofício.
Do outro lado do dia, três peças que tratam de método e chegam à mesma teimosia: o caminho pesa mais que a conclusão. A medicina medieval receitava governo das emoções, jardim e companhia com a mesma seriedade com que receitava remédio. Craig Mod passou dez dias andando pelas mesmas ruas de Londres e não extraiu lição nenhuma disso. E seis matemáticos gastaram quase uma década para provar outra vez um teorema que já estava fechado desde 1976. Esmeraldas é o que ancora tudo no chão daqui: a mudança de casa como mudança de classe, medida em elevador.
vínculo
The Paradoxes and Possibilities of Transformation: Adam Phillips on Our Ambivalent Desire for Change, The Marginalian, Maria Popova sobre On Wanting to Change — a tese é que mudar é um problema de conhecimento antes de ser um problema de vontade: para querer melhorar é preciso saber em quê, e é justamente isso que não se sabe. Phillips vai às duas conversões fundadoras da tradição, Paulo e Agostinho, para dizer que elas não resolvem os conflitos que prometiam resolver — apenas os expõem. O que me fica é o argumento de que descrever a própria vida como progresso ou como decadência já é uma forma de traçá-la: “There is no description of a life without an account of the changes that are possible within it.” A alternativa que ele toma de Winnicott não é firmeza nem consistência (que ele põe no mesmo balaio da adição e da posse), é capacidade de ser surpreendido. Popova, glosando a Solnit, formula o ponto cego: o eu que imagina o depois é o eu que precisa ter morrido para o depois existir.
Impatience is an emotion, not a trait, Psyche · Amy Arthur — Amy Arthur assistiu à Odisseia do Nolan, mediu-se contra os vinte anos de espera de Penélope e saiu perdendo: fila de correio e nove anos até um diagnóstico de endometriose entram na mesma conta de impaciência. A virada vem de Kate Sweeny e colegas, em Riverside: impaciência é emoção, e paciência é o processo de administrá-la — não um traço com que se nasce. O achado mais interessante é que o que pesa não é a duração da espera, é o quanto ela parece justa. Reclassificar move a cobrança de lugar, e é por isso que o texto não termina em técnica.
The longest walk, Psyche, direção de John Haley — não assisti, fica anotado. A chamada anuncia o padre Michael Shanahan contando um processo que levou décadas: primeiro reconhecer a tensão, depois contar à família, por fim se identificar publicamente como padre católico gay, incluindo como lidou, dentro da oração, com a posição oficial da Igreja de que a atração homossexual é um “objective disorder”. Imagens de arquivo da vida dele montadas com filmagem de missa em Chicago.
cultura
Why Is Everyone In Tech So Sad?, Longreads · Krista Stevens — o que chega aqui é a apresentação do Longreads ao ensaio de Aaron Horwath na Noēma, e a tese anunciada é que a crise do trabalhador de conhecimento não é estritamente econômica, é existencial: o problema é trabalho-como-performance. A aposta de Horwath é no “messy middle”, o meio bagunçado de interação e colaboração humanas, contra a alternativa de um exército de agentes. O trecho que o Longreads escolhe destacar diz que o Workism é espetáculo e que devemos uns aos outros o lembrete de que este trabalho não importa tanto: “No one has ever died over a spreadsheet.” Fica de pé junto com Phillips: a vida narrada como mito de progresso profissional é uma descrição, e descrições operam.
Medieval mental health, Aeon · Katherine Harvey — Harvey conta que assumia um passado alienígena no assunto até parar de ler hagiografia e começar a ler regimens, os manuais de vida saudável do fim da Idade Média. No sistema humoral, as emoções eram uma das seis não-naturais, ao lado de dieta, exercício e sono: controlar o que se sente era prescrição médica, não metáfora, e o inventário de cuidados passava por jardim, música e convívio. O que desmonta a ideia de época ingênua são os casos: Matthew, precentor em Rievaulx no século XIII, escrevendo que não havia paz em seus ossos e que o cargo o mataria; o mercador Francesco Datini sonhando com a casa desabada sobre a família inteira e resumindo a vida em uma linha — “Fate has so willed that, from the day of my birth, I should never know a whole happy day.” A imagem que ela prefere, e eu também, é a do espírito como arco retesado: forte, mas incapaz de sobreviver à tensão contínua, de modo que “disputas na casa” encurtam os anos de alguém. Casa com o Newton comprando quiromancia do dia 8: o passado não era bobo, tinha outro vocabulário.
brasil
Esmeraldas não é Cohab porque tem elevador, ZUM (IMS), com o texto “Cidade Prematura”, de Lilia Guerra — o título carrega a tese inteira: a fronteira de classe corre por dentro da periferia, e ela é o elevador. Guerra se mudou para a Cohab do extremo leste em 1986 e a bronca era não morar em “predinho”; o que a família ocupou foi um embrião, jargão de construção civil para a unidade com os cômodos essenciais, projetada para expansão futura que não veio — sem dinheiro para arame farpado, que dirá para os dois cômodos com laje que a mãe sonhava. A parte mais dura é a economia da melhoria: quartzo na parede, parabólica, porta sanfonada escolhida em catálogo na feira de domingo, cada moda virando, uma temporada depois, resquício amontoado no monturo. Do lado das fotos, a mesma herança em outro registro: o “quarto de empregada” que alguém achou que fazia sentido num apartamento de periferia, com crianças atravessando a cozinha para chegar ao próprio quarto, e a legenda que diz que a Ágatha cursava direito em 2018 e hoje é sócia de uma consultoria jurídica em Taubaté.
Transcrição: Carla Madeira e Mariana Salomão Carrara no podcast 451 MHz, Quatro Cinco Um · Sofia Rego — gravado n’A Feira do Livro, com as duas dizendo que o que as atrai é inventar quem elas não são: Carrara chama de exercício de empatia e aproxima do ofício jurídico, onde vidas alheias chegam como casos; Madeira diz que a ficção não testa verdade, testa possibilidade da condição humana. O argumento mais forte está no trecho lido de Cláudia Vera Feliz Natal: um juiz que só alcança a própria solidão imaginando uma câmera, moldando arroz em forma de patinhos para si mesmo, porque “apenas uma câmera e um diretor de um filme podem garantir que exista aqui algum sentimento”. É Phillips do outro lado do balcão — o eu que só existe nas suas representações, agora escrito como comédia de vara judicial. As duas também reclamam do rótulo de “literatura feminina” que insistem em colar nelas.
ciência
The Four-Color Theorem Gets a Rare New Proof, Quanta · Gregory Barber — Thorup, Thomassen, Kawarabayashi, Mohar e mais dois colegas passaram quase uma década para provar de novo algo que já estava provado desde Appel e Haken, em 1976, e o resultado saiu em março, com apresentação marcada para novembro no FOCS. A prova nova é mais complicada que as antigas — Gonthier diz que “it looks like they’ve used electricity liberally” —, mas devolve um jeito muito mais eficiente de colorir mapas e grafos, e abre propriedades estruturais de grafos planares que podem destravar outros problemas. O que faz a matéria valer é a história do erro: Kempe anunciou solução em 1879 e ela ficou de pé onze anos, até Heawood achar a falha no procedimento de troca de cores, que segue no coração de todas as provas posteriores com o nome dele. Thomassen: “Isn’t it interesting that you make a mistake which is so interesting that it’s named after you?” Um teorema pode estar fechado e continuar insatisfatório, e a “doença das quatro cores” é justamente a recusa de aceitar verdade sem explicação.
achados
- A Few London Strolls, Craig Mod — dez dias num canto nordeste de Londres, manhãs lendo e escrevendo até ficar vesgo, tardes repetindo as mesmas ruas; cachorros sem coleira entre as lápides tombadas do Abney Park, o apartamento no Barbican como cenário de Brazil, o Shard pulsando no horizonte como olho de Sauron, e um Zyn sueco que o deixou encolhido no chão em suor frio. Nenhum conselho sobre caminhar: o caminhar.
fontes paradas
Eat Your Nuts (346 dias), First Round Review (319), Dirt (301), Gurwinder (257), Literary Hub (109), web.dev (106), Out of Office (79), A List Apart (73), Anti-Mimetic (58), Off Brand (50), Philosophy Now (40), The Sunday Long Read (37), Adjacent Possible (33).