antonio leandro

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fukuyama volta a 1989; a banda muse perdeu o @ para a meta

o dia todo trata de quem pode mexer no registro depois de escrito: fukuyama revendo a própria tese, warlpiri pintando sobre o mapa colonial, uma cidade dos anos 1950 num galpão

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escrito por pipeline de llm, revisado por antonio leandro antes de publicar · como é feito

Ontem o dia inteiro discutiu a régua: com que critério se lê um sujeito de 1663 que comprou um livro de quiromancia. Hoje a pergunta girou um quarto de volta e virou a caneta — quem tem o direito de mexer no registro depois que ele já está escrito, e o que acontece com quem não tem.

Do lado de quem tem: Francis Fukuyama voltando ao ensaio de 1989 pela porta biográfica, artistas warlpiri pintando por cima dos mapas coloniais da Austrália Central, um galpão em Chula Vista montado como cidade americana dos anos 1950 para que quem perdeu a memória recente tenha onde passar o dia. Do lado de quem não tem: a banda Muse, que era @muse no Instagram e virou @museband porque a Meta resolveu chamar um agente de IA de Muse. E no meio a ficção, que é onde a reescrita é sempre disputada: a narradora de Plunkett tratando o luto de outro homem como insumo de desejo, e as personagens de Teresa Veiga saindo do delírio para reclamar a palavra e, com ela, o direito de mentir.

Os dois papers do dia não entram nesse fio, e é bom que não entrem. Corrigem o registro pelo outro método: medindo.

vínculo

The Barn Manager’s Grief Is Hotter Than Foreplay — Electric Literature, excerto de The Lonely Girl’s Vegetable Patch, de Genevieve Plunkett. Drew tem vinte e um anos, exagerou tudo no currículo para virar gerente de estábulo e se envolve com Tristan, que está de coração partido por Cleo, dezessete anos mais velha e casada com um homem dezessete anos mais velho que ela. O que o excerto faz de melhor é mostrar Drew tratando a história alheia como material: quando Tristan conta a cena do feno, ela interrompe para perguntar exatamente quão duro ele ficou, e ele responde, contrariado, oferecendo consultar a escala Mohs. “He was like a kid’s treasure map” — uma coisa cujo valor está em ser mapa de outra pessoa. Corre por baixo uma segunda linha, mais dura: a diretora do centro de equoterapia que para o cavalo no meio do trote para perguntar se Drew já respirou direito uma vez na vida, e o e-mail do chefe do sebo que ela precisa abrir para confirmar a si mesma que não é louca.

Town square — Psyche, documentário de Josh Izenberg. Town Square fica em Chula Vista, na Califórnia, e é um centro-dia para pessoas com Alzheimer e demência que por dentro é uma cidadezinha dos anos 1950 e começo dos 1960: lanchonete de época, cinema passando clássico, vitrines com a tipografia certa. O princípio é a terapia de reminiscência — em vez de obrigar a pessoa a se reajustar todo dia a um presente que ficou incompreensível, mobiliar o passado onde ela ainda mora. É cenografia como cuidado, e o filme deixa o mecanismo à vista: acompanha a construção, a abertura em 2018 e as famílias dos primeiros meses, sem prometer que o cenário resolve o que não tem solução.

cultura

The Beginning of the End of History — 3 Quarks Daily, reproduzindo a abertura do texto de Fukuyama na Persuasion; li a abertura, o resto está lá. E a abertura já é o melhor: “The End of History?” foi escrito na casa dos sogros em Las Vegas, no inverno de 1988-89, para uma palestra no Committee on Social Thought organizada por Allan Bloom dentro de uma série chamada “The Decline of the West”. Bloom era pessimista de hábito quanto à capacidade das democracias liberais de se defenderem; Fukuyama avisou de antemão que traria uma leitura mais otimista, e Bloom disse que tudo bem. A palestra foi um ano antes da queda do Muro, e a frase que virou clichê usado contra o autor nem era invenção do autor: é central em Hegel. Trinta e sete anos depois, o gesto de revisão começa mostrando a mesa onde a tese foi escrita.

Making revisions — Aeon Video, curta dirigido por Patrick Waterhouse com as comunidades de Yuendumu e Nyirripi, no centro de arte Warlukurlangu. A doutrina do terra nullius tratou a Austrália como terra de ninguém, o que serviu para justificar a posse britânica e para desligar comunidades aborígines de lugares onde estavam havia dezenas de milhares de anos. Waterhouse passou anos levando documentos e mapas coloniais oficiais a artistas warlpiri e convidando-os a responder nas próprias linguagens visuais. O resultado é o oposto do apagamento: o documento continua ali embaixo, legível, e a discordância fica visível nas duas camadas ao mesmo tempo. Abre com “The land had its own stories.”

brasil

Palavras contra a loucura — Quatro Cinco Um, Maria Fernanda Barros sobre Vermelho delicado, da portuguesa Teresa Veiga. A resenha vale porque separa duas coisas que costumam vir grudadas: os contos são precisos, sem desperdício de palavra, e a névoa não está na frase e sim no que o leitor consegue antecipar. É essa a tese — a precisão é justamente o que tira a loucura do lugar de disparate, e Veiga disciplina a linguagem para que o território limítrofe possa virar norma nova em vez de desvio pitoresco. Tem a passagem que amarra o dia inteiro: ao escapar do estado delirante, a personagem “ganha de novo o direito à palavra”, e com ele o direito de recompor o passado nos próprios termos, inclusive de mentir e enganar o leitor com memórias que talvez não existam. Barros fecha sem resolver a falta de vocabulário, que é o certo a fazer: o livro assume a névoa e não informa quem, afinal, está fora de si.

ciência

Neocortical long-range inhibition promotes cortical synchrony and sleep — Nature, Jacob M. Ratliff e colegas. Interneurônio inibitório cortical é, por definição de manual, célula local, e a exceção é uma subclasse minúscula: as Sst-Chodl, menos de 1% dos neurônios GABAérgicos do córtex, conservadas de salamandras a humanos, com axônios que viajam milímetros e alcançam quase toda a extensão cortical ipsilateral. Reconstruindo dezesseis delas e usando genética interseccional para marcar só elas, o grupo mostra que estão preferencialmente ativas na vigília quieta e no sono de ondas lentas, e que ativá-las produz estados corticais sincronizados e comportamento de sono. A leitura de fundo é que o córtex não se limita a registrar um sono decidido em outro lugar. O que me chama atenção tanto quanto o achado é a parte metodológica: a diversidade dos interneurônios corticais é reconhecida há quase um século e essas células ficaram fora de alcance esse tempo todo por falta de ferramenta para pegá-las isoladas.

Ozempic and Wegovy may have an unexpected mental health benefit — ScienceDaily, sobre o estudo liderado por Mark Taylor, da Griffith, publicado na Acta Psychiatrica Scandinavica. Coorte nacional sueca: quase quinze mil pessoas com transtorno bipolar que receberam prescrição de GLP-1 entre 2009 e 2024, com semaglutida associada a 21% menos internação psiquiátrica na comparação entre períodos de uso e de não uso da mesma pessoa. O que faz o número valer mais que a média dos releases é o contra-exemplo interno: liraglutida e dulaglutida não apareceram com o efeito. Leio isso como um problema para a explicação mais fácil, a de que seria a perda de peso ou um efeito de classe, já que as outras drogas também emagrecem. Segue observacional, e o próprio autor principal diz que agora é caso para ensaio randomizado.

achados

  • Zuckerberg surripiou o @ da banda Muse no Instagram? — Núcleo, Alexandre Orrico. Nota curta: a banda britânica deixou de ser @muse e virou @museband depois que a Meta batizou de Muse o novo agente de IA, “seu agente pessoal de IA que faz as coisas acontecerem”. O Núcleo diz que perguntou à Meta se a troca foi pedida à banda ou apenas comunicada, e que até a publicação não houve resposta.
  • This Bottle of Dijon Mustard from Costco is Crazy Hot — Longreads, Brendan Fitzgerald indicando a apuração de Jake Edmiston no Toronto Star: meses atrás do motivo pelo qual um pote de Maille Dijon Originale saiu absurdamente ardido, com teste cego feito por provadora profissional, visita ao chão de um dos maiores moinhos de mostarda do Canadá e uma aula sobre glucosinolatos no caminho. O prazer aqui é o trabalho aparecendo, não a curiosidade contada pronta.

fontes paradas

Treze fontes vieram sem publicar. As mais fundas: Eat Your Nuts (344 dias), First Round Review (317), Dirt (299), Gurwinder (255). Literary Hub, que tem cadência de diário, está em 107; web.dev, em 104; A List Apart, em 71. Adjacent Possible, do Steven Johnson, é a única que ainda cabe no calendário de quem só escreve devagar: 31 dias.