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o dia inteiro ficou no limiar, menos o cão de exposição

warburton medita sobre a ausência, turner nomeia o limiar e rumi pede o beijo antes da lápide: o dia ficou no intervalo, menos a exposição canina, onde a forma já vem escrita

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escrito por pipeline de llm, revisado por antonio leandro antes de publicar · como é feito

Cinco textos de hoje desenham a mesma figura por caminhos que não se conhecem: o estado em que a coisa ainda não fechou. Warburton propõe meditar sobre quem não está à mesa; Turner dá nome ao lugar entre o que se largou e o que ainda não se é; um preprint sobre dependência descreve a recuperação como zona que se mantém, e não como margem que se alcança; Rumi manda beijar o rosto antes da lápide, porque depois não adianta. Em nenhum deles o intervalo é sala de espera. O intervalo é o assunto.

O contraponto veio de onde eu não esperava, de uma exposição canina. Ali a forma final está escrita num documento, com proporções, ângulos e percentuais, e o trabalho de todo mundo é medir a distância entre o cachorro e o papel. Lendo as duas coisas no mesmo dia, o que se perde no padrão fica visível: não é o bicho, que provavelmente está bem cuidado, é a hipótese de ele vir a ser outra coisa. Os dois brasileiros do dia ficam do lado do intervalo — um luto que se escreve enquanto dura, uma imagem que muda de natureza entre o papel e a projeção.

vínculo

Absence of presence and presence of absence, Psyche, Nigel Warburton — Warburton desconfia do mindfulness como modo fundamental de ser, e não como exercício ocasional: evoluímos para ignorar ruído, antecipar e projetar expectativa sobre o ambiente, e um motorista de táxi encantado com o brilho do para-choque da frente é um perigo público. A alternativa que ele propõe é o inverso exato do exercício da passa: dez minutos concentrado na ausência de alguém que você esperava ter ao lado agora e não tem. O modelo é o Sartre de L’Être et le Néant chegando atrasado ao café — há gente, mesas, fumaça, uma plenitude de ser, e mesmo assim “Pierre absent haunts this café”. Fica porque trata a falta como conteúdo da experiência, no mesmo nível das rugas da passa, e porque o exercício termina mandando você voltar ao seu jeito habitual, semiconsciente, de existir. Não há cura oferecida no fim.

The Art of Choosing Love Over Not-Love: Rumi’s Antidote to Our Human Tragedy, The Marginalian, Maria Popova — o poema é curto e a tese é dura: adiamos o amor até que a perda torne a pessoa preciosa, e aí fazemos poema e canção sobre a perda e seguimos vivendo do mesmo jeito. “Kiss my face instead!” O que me interessou tanto quanto o poema foi a nota de tradução de Haleh Liza Gafori, que abre a seleção de Gold: o persa vive de rima interna e hipérbole, o inglês contemporâneo vive de concretude e economia, e ela optou por perder o jogo sonoro para conservar o movimento giratório do pensamento. É uma decisão de tradutora que também é uma leitura do poema — o giro importa mais que o som.

cultura

The Power of Being a Threshold Person: Liminality, Communitas, and the Anti-structures of Possibility, The Marginalian, Maria Popova — Popova abre com uma frase dos Moomins de Tove Jansson, “All things are so very uncertain, and that’s exactly what makes me feel reassured”, e usa o antropólogo Victor Turner para explicar por que isso não é ingenuidade. Em The Ritual Process (1969), Turner chama de liminaridade o miolo de todo rito de passagem: o momento em que já se renunciou ao ponto fixo e ainda não se incorporou ao estado transformado. O ponto que salva o texto de virar autoajuda é que liminaridade, nele, não é humor individual, é posição social — quem vive na margem, por escolha ou por despejo, é quem tende a catalisar transformação, e o que sustenta isso é a communitas, o vínculo humano genérico que funciona como anti-estrutura da sociedade organizada em mais e menos. Le Guin, que leu Turner, resume a diferença melhor que todo mundo: estrutura classifica, communitas reclassifica.

Your Book Review: The Tale of Genji, Astral Codex Ten, leitor anônimo (finalista do concurso de resenhas de 2026) — Royall Tyler abre sua tradução dizendo que os pensamentos e sentimentos das personagens continuam frescos e que qualquer um pode ler o livro hoje, sem notas. A resenha discorda disso frontalmente: as notas são indispensáveis e as personagens são datadas a ponto de serem ilegíveis por identificação. A demonstração é a melhor parte — a resenha reconstrói as próprias reações de leitura, interrompendo o companheiro a cada capítulo para relatar que Genji se apaixonou pela madrasta de dezesseis anos, engravidou a madrasta, espiou uma menina de dez anos por um buraco na parede pensando em criá-la para ser a mulher perfeita, e depois voltou e a raptou. Daí sai a tese de fundo: a corte Heian é uma civilização alienígena em que estética e moral são a mesma coisa, e personagem feia também tem letra desengonçada e poema sem imaginação. O trecho que li para até o meio dessa parte sobre estética, então estou julgando pelo primeiro terço.

The “Conformation Show” and the Pursuit of the Ideal Dog, Longreads, Brendan Fitzgerald — é a chamada do Longreads para o relato de Hannah Berger numa exposição canina na Virgínia, então li o convite e o parágrafo citado, não a peça inteira. O que já está no convite basta para o dia: numa conformation show, juízes medem o quanto cada cachorro “conforma” a um documento escrito, e esse documento, diz Berger, transmuta função histórica em qualidades superficialmente mensuráveis e vendáveis. O detalhe que fica é a variação entre os padrões — o do greyhound tem duzentas palavras e só escapa da sobriedade ao descrever os olhos (“dark, bright, intelligent, indicating spirit”); o do Coton de Tulear é oito vezes mais longo, descreve cores em percentuais e menciona duas vezes a joie de vivre do bicho. Fitzgerald garante que o final do texto o fez arfar; não posso confirmar.

brasil

O luto de um pai, Quatro Cinco Um, podcast 451 MHz — o filósofo e educador Fernando José de Almeida fala sobre Elogio à saudade, ensaio afetivo que escreveu sobre a morte da filha, a documentarista Lorena Almeida, que se matou em 2023, aos 43 anos. A chave que ele encontrou é etimológica e não é enfeite: luctus e luctare, luto como luta contra uma força que revira a pessoa do avesso. A parte mais afiada é a recusa dos consolos de boa vontade — “Não vai passar, não quero que passe. Quem é você para dizer que vai passar?” — e o que sobrou no lugar deles foi o empurrão dos amigos, entre eles Wisnik, que perdeu um filho e perguntou apenas se escrever estava fazendo bem. Almeida também conta que a fé de oitenta anos não caiu, mas virou desconfiada diante do mármore preto do túmulo. O episódio termina com os canais de ajuda; o CVV atende no 188.

Papel e projeção: aproximações e distâncias entre fotolivros e fotofilmes, ZUM — ensaio de forma, não notícia de exposição. O fotofilme, definido aqui como uma linguagem com “cara de cinema e corpo de fotografia”, é feito de imagens fixas organizadas por montagem, duração e som, e a tese é que a fotografia não precisa se mover para ganhar tempo: basta que alguém decida quantos segundos ela permanece na tela. O exemplo é 4.000 disparos, de Jonathas de Andrade, que existe nos dois suportes — no fotolivro cada rosto anônimo tem 10x13 cm e o leitor decide quanto demora; na versão audiovisual os mesmos rostos passam rápido demais para que alguém se detenha em qualquer um. Eisenstein entra pela montagem como relação e conflito, Tarkovski pela duração que se acumula, e a conclusão prática é que o suporte não é embalagem: ele é parte da obra, com peso, gramatura e cheiro de um lado, feixe de luz do outro.

ciência

Recovery Viability Theory: Recovery Capital and the Recursive Maintenance of Addiction Recovery, preprint no PsyArXiv, sem revisão por pares — os modelos formais de recuperação de dependência que existem tratam recuperação como transição para um estado de baixo ou nenhum consumo, isto é, como chegada. O artigo adapta a teoria da viabilidade, ramo da matemática que estuda sistemas dinâmicos sob restrição, para tratá-la como zona: o conjunto de estados a partir dos quais uma pessoa consegue sustentar saúde e funcionamento dentro de restrições vivíveis ao longo do tempo, com o capital de recuperação configurando quais estratégias existem, quanto custam e quão eficazes são. Três consequências, e a que me pegou foi a primeira: dá para satisfazer todas as restrições do presente e ainda assim estar fora da zona, porque o capital disponível não mantém todas elas satisfeitas adiante. A segunda é quase cruel — a fronteira existe, é configurada pelo próprio capital e permanece desconhecida para quem está tentando ficar dentro dela. É artigo de proposta, com proposições testáveis e nenhum dado; vale pelo modelo, não pela evidência.

achados

The 17 Minutes That Changed America — Krista Stevens indica, no Longreads, a reportagem de Garrett M. Graff para a National Geographic: o 11 de setembro minuto a minuto, com foco na janela em que aquilo ainda era um acidente de aviação. Na chamada aparece Mueller, na primeira semana como diretor do FBI e numa reunião sobre a al-Qaeda, olhando o céu e perguntando como um avião não viu a torre num dia tão claro. Li a indicação, não a peça de Graff.

fontes paradas

A Espiral, da Lalai Persson, está há 65 dias sem publicar, e a Literary Hub, há 102. The Public Domain Review (37) e Philosophy Now (33) ainda cabem no ritmo normal delas. Dirt (294) e Eat Your Nuts (339) já dá para tratar como encerradas.