antonio leandro

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só 4% foram a uma festa em 2023, e frederick estava trabalhando

a festa sumiu porque ninguém mais faz o trabalho de convocar; lionni, al qasimi e geuss falam do mesmo buraco: a manutenção invisível que ninguém contabiliza.

· 8 itens de 8 fontes

escrito por pipeline de llm, revisado por antonio leandro antes de publicar · como é feito

Quatro por cento. Foi a fatia de adultos americanos que, num fim de semana ou feriado de 2023, disse ter ido a uma festa. O número aparece numa conversa da Vox com uma historiadora da vida noturna, e o que ele mede não é tristeza nem cansaço: é a ausência de quem organiza. Festa é obra feita por alguém — alguém empurra os móveis, alguém faz a lista, alguém em Nova Orleans por volta de 1900 abria a própria casa num sábado, cobrava na porta e pagava o aluguel com o que entrava. Some o trabalho de convocar e some a festa, sem que ninguém consiga apontar o dia em que parou.

Li o resto do dia com esse número na cabeça, e quase tudo fala do mesmo buraco por outro ângulo: trabalho que não se parece com trabalho e, por isso, não é contado. Frederick, o rato de Leo Lionni, encarando o vazio enquanto os irmãos estocam grãos. Farah Al Qasimi dizendo que o que se expõe numa sala é sempre o produto higienizado de anos que não aparecem em lugar nenhum. Christian Miller definindo crise de honestidade pelo que acontece quando ninguém está olhando. E Raymond Geuss como contrapeso: enquanto se discute quem trabalha de verdade, a carapaça que sustentava a discussão está rachando.

vínculo

Why we should all be partying more, Vox, Jonquilyn Hill conversando com Imogen Willetts, autora de Up All Night: A History of Going Out — a tese é que este momento é o desvio, não a regra: durante quase toda a história humana, beber, dançar e se exceder em grupo eram parte da religião e não precisavam de endereço próprio. “For most of human history, the experiences that we associate with nightlife — drinking, dancing, music, hedonism — those experiences were simply part of religion because religion was so all-encompassing.” Há inclusive a teoria de que os bancos de madeira entraram na catedral de Wells para conter a dança; a vida noturna comercial só começa em Yoshiwara, nos arredores de Edo, no século XVII, fora da religião e fora da corte. Willetts usa a efervescência coletiva de Durkheim para nomear o que se perde, mas a parte que ficou comigo é a mais material: as fish fries de Nova Orleans e as rent parties do Harlem, casas viradas do avesso para cobrir o aluguel, com convite escrito em cartão de visita deixado no barbeiro. Langston Hughes colecionava os dele, e a coleção está hoje num arquivo de Yale.

cultura

The Carapace Cracks, 3 Quarks Daily, Robin Varghese apontando para Raymond Geuss no The Ideas Letter — é chamada, não texto: o que li foi o parágrafo de abertura, um inventário do desmoronamento ocidental. O que me segurou nele é que o inventário é material, não de humor: direito internacional virado piada, sistemas políticos oscilando entre paralisia e destruição institucional caprichosa, navios e tanques caríssimos que falham sem aviso, bolsa em alta sobre economia parada. “Do any parents now still assume that their children’s lives will be qualitatively better than theirs?” O título promete a pergunta que falta em quase todo diagnóstico de época — qual carapaça exatamente está rachando, e o que ela protegia — e é por isso que vou atrás do texto inteiro.

Are You Working: In Defense of the Invisible Labors of Creativity, The Marginalian, Maria Popova — releitura de Frederick (1968), de Leo Lionni, como tratado disfarçado de livro infantil: a família de ratos estoca comida para o inverno, Frederick fica parado olhando o nada, e quando perguntam por que não trabalha, responde que trabalha. No inverno a comida acaba, a conversa esvazia, e o que ele guardou — luz, cor, palavras — é o que sobra. O enquadramento vem da distinção de Lewis Hyde entre work e labor e de uma carta de André Gregory a Richard Avedon: “Artists are always working, though they may not seem as if they are.” A abertura é a melhor parte, a amiga física na esteira da academia com o olhar vazio resolvendo a lógica de buracos negros — dois dias depois do buraco negro que esquece de graça, ele volta numa esteira. Minha ressalva: a defesa funciona porque Frederick entrega no fim; sem a entrega é licença para não fazer nada, e Popova não encosta nessa parte.

The best books on Honesty, Five Books, Christian B. Miller entrevistado por Cal Flyn — a definição operacional é boa: há crise de honestidade quando mentir fica mais vantajoso e, ao mesmo tempo, mais fácil de não ser pego, e o fio comum dos casos que ele lista (cola com IA, deepfake, infidelidade online, desinformação política) é tecnológico. Num estudo de Wake Forest, pediram para ordenar sessenta características de uma pessoa em três dimensões — o que você mais gosta, o que mais respeita, o que mais quer saber — e honestidade ficou em primeiro nas três. Ao contrário do que eu esperava, ele não condena a mentirinha: diz que às vezes ela é gentileza, que nenhuma das duas virtudes vence sempre, e usa Silence, de Shūsaku Endō, como o caso em que a hipocrisia de Rodrigues é superada por algo maior, a compaixão pelos camponeses. Sobre Frankfurt e o bullshit como indiferença à verdade, perguntado se o que a IA gera é bullshit, ele topa a definição: “It’s a kind of confabulation designed to please its user.”

Photographer, filmmaker, and musician Farah Al Qasimi on operating within a human scale, The Creative Independent, entrevista de Allison Hasiba Abdallah — escala humana aqui é critério de trabalho, não tamanho da obra. Na Trienal de Yokohama de 2020 ela não pôde viajar, montou por Zoom com impressões de xerox, e ter sido obrigada a abrir mão do preciosismo abriu mais do que fechou; na Bienal de Sharjah fez o que não se faz numa bienal, um vídeo longo, porque o projeto pedia. A tese é sobre o que se mostra: em geral o produto higienizado de anos de pesquisa e relação, arrumado para sugerir domínio da forma, e ela prefere “the clumsiness of how you get to make the decisions that you make”. A melhor medida disso está na escultura de ostras na Corniche de Abu Dhabi: gatos dormiam dentro das peças conforme a hora do dia, uma gata pariu ali, as crianças desenhavam na areia da base, e alguém abriu uma entrada no Google Maps chamada Pearl Corner para avaliar a obra como calmante.

brasil

O fundo do poço disfarçado, Newsletter do Lona, André Lona — a ideia é a katabasis, a descida ao submundo como passagem, e o fundo do poço que não se anuncia porque a gente o normaliza com distração e bobagem. Ele tira três traços das biografias que leu: o chacoalhão quase sempre vem de fora, quase sempre é sobre algo que a pessoa já sabia e tinha medo de admitir, e quase sempre é de onde sai a virada. A frase que presta é “Ninguém explode o próprio apartamento sozinho”, em cima do Clube da Luta, e ela conversa direto com o resto do dia: alguém tem que fazer o trabalho invisível de chegar e dizer na sua cara. Opinião: o texto termina virando pista de pouso para o anúncio da mentoria dele, com case de faturamento e formulário de aplicação, e isso come a força do que veio antes. A ideia sobrevive ao anúncio, mas eu preferia lê-la sem ele.

ciência

Is This Massive New Study on the Benefits of Whole Grains Part of the “War on Protein” RFK Jr. is Ending?, Nautilus, Claire Maldarelli — o título é briga política com a pirâmide invertida do HHS; o que interessa é a meta-análise no European Heart Journal, com 87 ensaios randomizados e mais de 6.500 pessoas, em estudos feitos nos EUA, Canadá, Ásia, Europa e Brasil. De 30 a 40 gramas de grão integral por dia, duas a três porções, já aparecem associados a peso, circunferência abdominal, pressão, colesterol total e LDL, triglicérides, glicose e marcadores de inflamação melhores; o benefício maior está entre 60 e 100 gramas, quatro a seis porções, no teto das recomendações atuais. A ressalva que o texto não faz com todas as letras: o que os ensaios mediram foram fatores de risco, não infarto, e a distância entre marcador e desfecho é exatamente onde a nutrição costuma se enrolar. Ainda assim há relação dose-resposta, e dose-resposta é o tipo de coisa que muda o que eu ponho no prato hoje à noite. É manutenção no sentido mais chato da palavra: ninguém nota a artéria que não entupiu.

achados

  • My Larval Roommates, The Paris Review, Sarah Nicole Prickett: o dinheiro do divórcio virou um armário de Margiela, Alaïa e Yohji, e então começaram a aparecer os furos, primeiro sob o braço, depois na cueca. A virada é quando ela percebe que as traças amam exatamente o que ela ama — lã pura, caxemira dobrada, o escuro, ficar guardado. “Wanting to live like someone with an inheritance, I had inherited a curse.”

fontes paradas

Quinze fontes do feed sem publicar nada. As que eu sentiria falta se acabassem: Main Character Syndrome (31 dias), Culture Study (32), The Convivial Society (34), Adjacent Possible (42). As que já trato como encerradas: Dirt (310), First Round Review (328), Eat Your Nuts (355). No meio, Literary Hub com 118 dias, o que é estranho demais para uma redação daquele tamanho — meu palpite é que quebrou o feed, não o veículo.