# a solidão não subiu, só o tempo sozinho; e não dá para se ver andando

> mastroianni mostra que a epidemia de solidão não aparece nos dados, mas a de tempo sozinho sim; e bernhard explica por que o autoexame não funciona

- edição: terça-feira, 15 de setembro de 2026 (2026-09-15)
- caderno: ensaio e cultura
- assuntos: ensaio · solidão · cultura · brasil
- itens: 9 de 9 fontes
- original: https://tonho.wtf/diario/2026-09-15-ensaio/
- autoria: escrito por pipeline de llm, revisado por antonio leandro (tonho.wtf)

---

Escorbuto não dá vontade de limão. É o detalhe que Adam Mastroianni usa para virar o dia do avesso: existe uma carência que mata e que não vem com aviso embutido — a pessoa incha, apodrece, perde os dentes e morre sem nunca pedir uma toranja. Depois disso não consegui ler o resto de outro jeito. Bernhard diz que ninguém consegue se observar andando, porque no instante em que olha já anda diferente. Sandra Lamb passa meses num loop de arrependimento que nenhuma quantidade de autoexame dissolve. Agassi, depois de uma carreira inteira de excelência, ainda não sabe responder por que faz tanta coisa que não quer fazer. E o Adriano de Natália Zuccala não tem palavra que sirva nos dois lados do trem que ele atravessa todo dia. Quatro peças sobre o mesmo defeito de fabricação: o aparelho que mediria a gente por dentro está quebrado, e estar quebrado é exatamente o que ele não consegue medir.

A outra metade do dia é gente que largou o instrumento virado para dentro e foi trabalhar com um virado para fora. Bernhard, aliás, deixa essa saída aberta no meio do argumento: observar outra pessoa sem que ela saiba é possível, é só a si mesmo que não dá. A técnica que a NASA fez para separar tons de vermelho em foto de Marte, rodando hoje num celular qualquer, achou mais de duzentas pinturas numa parede de Angkor Wat que olho nenhum tinha visto. Zach Lieberman diz que o trabalho dele é subir o volume do código até quebrar para ver o que aparece. Nos dois casos o método é o mesmo: não adianta olhar com mais atenção, tem que remapear a escala.

## vínculo

**[Say yes to regret](https://psyche.co/turning-points/how-a-to-do-task-stopped-the-ruminative-loop-of-my-grief)**, Psyche, Sandra Lamb — Charles morre depois de uma sequência de decisões pequenas que, vistas de trás, parecem todas dela: a viagem que ela fez, o telefonema em que não gritou com o paramédico, o hospital errado a quatro milhas em vez do certo a dez, os dois sistemas de prontuário que não conversavam entre si e levaram quatro dias para ela descobrir. O que vem depois tem nome clínico, ela aprendeu tarde — ruminação, o hábito de voltar às causas e consequências do sofrimento sem sair do lugar. A lista dela é minuciosa e tem objeto real, que é o que a distingue da culpa genérica de luto: "I should not have gone to Charlotte." O texto que peguei vai até o segundo mês de noites acordando às 2h30; a tarefa de lista que quebra o loop, e a ideia de aceitar o arrependimento em vez de dissolvê-lo, estão anunciadas no título e eu não as li.

**[Chasing la dolce vita](https://aeon.co/essays/italianness-is-a-state-of-travelling-in-both-directions)**, Aeon, Ben Faccini — A tese está no subtítulo: italianidade como um estado de estar viajando nas duas direções ao mesmo tempo. Entre 1861 e 1985 saíram cerca de 29 milhões de italianos da península, e o mito do eterno retorno não é nostalgia residual, é manutenção ativa — o bisavô Marco, internado na Ilha de Man em 1940 quando Churchill mandou prender os estrangeiros inimigos, voltava todo verão a Emilia-Romagna de terno inglês impecável para dizer que finalmente estava em casa, e ia embora de novo. Faccini faz o mesmo movimento sem ter escolhido: descobre que os lugares de Londres onde sempre se sentiu inexplicavelmente triste são endereços dos bisavós. A história da abertura é a melhor coisa do ensaio e ele não a explica: o menino que acha um filhote de águia, leva no peito da camisa, chega em casa e descobre que o bicho comeu tiras da carne dele. A águia cresce, o menino cresce, e um dia a águia vai embora.

## cultura

**[Thomas Bernhard on Walking, Thinking, and the Paradox of Self-Reflection](https://www.themarginalian.org/2026/09/15/thomas-bernhard-walking/)**, The Marginalian, Maria Popova — A novela *Walking*, de 1971, num trecho sem parágrafo nenhum, argumenta que a autodescrição não é difícil: é falsa. Quem anda revela como pensa e quem pensa revela como anda, mas basta perguntar a si mesmo como se anda para já andar de outro jeito — e o que você observa então é outra pessoa. "If we observe ourselves, we are never observing ourselves but someone else." Acho a moldura da Popova decorativa, com Plath e Tolstói servindo de aquecimento para um texto que não precisava; o miolo de Bernhard é duro como pedra e resolve, de passagem, por que introspecção rende tão pouco.

**[Can Andre Agassi Enjoy Pickleball More Than He Hated Tennis?](https://longreads.com/2026/09/10/andre-agassi-tennis-pickleball/)**, Longreads, Brendan Fitzgerald — É a nota do Longreads sobre o perfil de Lizzy Goodman, não o perfil; li a recomendação. Mas a recomendação já entrega o osso, que é a recusa do arco pronto: o tenista aposentado que descobre um esporte de nome bobo e exorciza os demônios da carreira seria a versão para a TV, e Goodman acompanha Agassi por meses justamente até essa versão desmontar. A frase que ele solta pedindo o segundo drinque vale o dia inteiro: "Why do I end up doing so many things that I actually don't want to do?" O problema não era o tênis.

## brasil

**[Vida além-trem](https://quatrocincoum.com.br/trechos/trechos/vida-alem-trem/)**, Quatro Cinco Um, Sofia Rego — Trecho de *Ainda não*, romance novo de Natália Zuccala pela Todavia. Adriano é bolsista num colégio de elite, trabalha por menos de meio salário mínimo na vendinha do Alto da Várzea das seis às nove, e o livro inteiro se passa num dia só, com o objetivo dele já dado: se matar. O mecanismo que faz a coisa funcionar é linguístico e Zuccala executa sem explicar — a narração em primeira e terceira pessoa ao mesmo tempo, o *bairro* que ele diz no colégio e que no bairro tem outro nome, a *quebrada* que ele não consegue usar sem se sentir imitação aguada do Mano Brown, os colegas ricos falando gíria ventríloqua. "Boiava no próprio arsenal linguístico sem saber manejar a letalidade das suas armas." A terceira pessoa é a escola; a primeira é o que ele engole.

**[Galáxia • eu só quero é ser feliz](https://galaxia.substack.com/p/galaxia-eu-so-quero-e-ser-feliz)**, Maria Clara Villas — Garimpo de links, e dois deles se lêem juntos: a análise do sample do Rap da Felicidade na música nova da Ana Castela, em que o funk dos anos 1990 entra no sertanejo para falar de ostentação e as perguntas da original evaporam, e a lista de designers gráficos africanos que ninguém cita. É a mesma pergunta duas vezes, sobre quem é sampleado e quem é creditado. Ela também manda ficar de olho em quem quer que você tenha medo de IA de um jeito bem específico, o que é raro vindo de uma newsletter de cultura visual.

## ciência

**[There is no epidemic of loneliness, but there is an epidemic of scurvy](https://www.experimental-history.com/p/there-is-no-epidemic-of-loneliness)**, Experimental History, Adam Mastroianni — Dois pecados estatísticos sustentam o número mais repetido do gênero: medir a solidão hoje, imaginar um ponto no passado onde havia menos, e traçar a reta entre os dois; ou cortar o resultado por idade e confundir efeito de idade com efeito de coorte. Comparando adolescentes de hoje com adolescentes de ontem, a curva desce, não sobe, e numa escala minúscula. O que desabou mesmo foi outra coisa: o tempo com amigos no fim de semana caiu pela metade em vinte anos, e a queda começou bem antes da covid. "People are more alone than ever, but they're not feeling much lonelier than they used to." Daí o escorbuto, que é a boa ideia do texto — a carência sem sinalizador correspondente. Marco como opinião: a parte em que o isolamento vira explicação para voto extremista, aposta em cripto e gooning é exatamente a reta traçada no ar que ele desmonta nos primeiros parágrafos, e o texto que peguei corta antes das curas.

## achados

- **[Source material: Zach Lieberman](https://www.figma.com/blog/source-material-zach-lieberman/)**, Figma — a inveja dele não é de colega, é de quem chegou primeiro num meio: Lillian Schwartz na Bell Labs, Myron Krueger. A regra que mais quebra é *don't repeat yourself*, porque repetir é ver a ideia velha com olho novo. E o livro que o animou, *Learning by Heart* da Sister Corita Kent, com arte em caixa baixa, arte como verbo.
- **[A Process Made for Mars is Now Uncovering Ancient Art on Earth](https://nautil.us/a-process-made-for-mars-is-now-uncovering-ancient-art-on-earth-1285039/)**, Nautilus — Jon Harman viu numa conferência de arte rupestre em 2005 uma foto de Marte tratada com decorrelation stretch, achou o paper da NASA de 1996, implementou como plug-in do ImageJ e depois como app de celular. Dois vermelhos quase iguais viram um vermelho e um verde. Em Angkor Wat, em 2014, apareceram mais de duzentas pinturas na parede.

## fontes paradas

Literary Hub, 113 dias. Dirt, 305. A List Apart, 77. Philosophy Now, 44, e o Adjacent Possible do Steven Johnson, 37 — esses dois ainda contam como atraso, não como abandono.
