# a demência destrancou um nome numa avó e o riso em outra

> duas avós perdem a memória e aparece o que guardavam: um nome, uma risada. o resto do dia separa o que dura do que se desfaz, da corda de fibra a zweig.

- edição: sábado, 12 de setembro de 2026 (2026-09-12)
- caderno: ensaio e cultura
- assuntos: memória · história · psicologia · ensaio
- itens: 8 de 8 fontes
- original: https://tonho.wtf/diario/2026-09-12-ensaio/
- autoria: escrito por pipeline de llm, revisado por antonio leandro (tonho.wtf)

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Duas avós com demência apareceram hoje em textos que não têm nada a ver um com o outro. A avó de Anagha Srikanth falava quatro línguas. No fim, esqueceu até quem cuidava dela e passou a pedir por um tal de Tony, que ninguém da família conhecia e que ela, nos momentos lúcidos, negava ter mencionado. A outra aparece de passagem no ensaio de Abílio Almeida sobre o riso: é a avó de uma amiga espanhola, que só começou a rir depois de adoecer — "I preferred that version of her", disse a neta. Os médicos descrevem a doença como apagamento. Nos dois casos ela fez o contrário e abriu uma gaveta.

O resto do dia olha o mesmo problema de longe: o que dura não é necessariamente o que importava. De Hohle Fels sobrou o bastão de marfim, não os metros de corda que ele ajudava a torcer. A língua que a avó de Srikanth fez questão de ressuscitar era o armênio, mas o carinho ficou no árabe que ninguém vigiava, e o texto pergunta se o Tony também ficou. John Gray separa a tecnologia, que acumula, da ética e da política, que se desfazem. O livro de Zweig que Ted Gioia relê é uma dessas coisas desfeitas, vista por dentro, em cerveja barata e marco sem valor. Os dois estudos de ciência puxam para o outro lado e acham persistência onde a gente supõe escolha: o temperamento que carrega a resposta do filósofo ao bonde, as mil e duzentas variantes debaixo da personalidade.

## vínculo

**[The Mother Tongue of All Secrets](https://sundaylongread.com/2026/09/12/the-mother-tongue-of-all-secrets/)**, Anagha Srikanth na The Sunday Long Read — Zvart era filha de sobreviventes do genocídio armênio que só falavam turco. Foi mandada com os irmãos à escola armênia para recuperar a língua tirada dos pais, a mesma que as mulheres ensinavam aos filhos com o dedo na areia durante as marchas da morte. Na Califórnia, proibia inglês aos netos sob ameaça de pimenta vermelha na boca, mas o carinho vinha em árabe — *habib albi*, *ruhi*, *omri* —, a única língua que nunca mandou ninguém trocar. A tese que fica: "No one tells you they will forget you so that they can remember someone else." O trecho que li parte de um nome que podia ser de qualquer um, volta a Kilis, na fronteira da Turquia com a Síria, e para na genealogia das línguas, sem dizer quem é Tony.

## cultura

**[How a Healthy Society Falls Apart](https://www.honest-broker.com/p/how-a-healthy-society-falls-apart)**, Ted Gioia no The Honest Broker — Gioia chama *The World of Yesterday* de melhor relato do século XX sobre uma sociedade saudável que se destrói passo a passo. São as memórias que Zweig mandou ao editor na véspera de se matar em Petrópolis, em 1942. O recorte é a hiperinflação, primeiro na Áustria e depois na Alemanha, e a força está no absurdo dos detalhes: o jornal a cinquenta mil marcos de manhã e cem mil à noite, o adiantamento de um ano de trabalho que chegava valendo a postagem do manuscrito. A melhor cena é a dos bávaros cruzando a fronteira para beber em Salzburgo, porque "one article remained free, which could not be confiscated: the beer that one had in the body". Quando a coroa se estabilizou e o marco despencou, os austríacos fizeram o caminho inverso na mesma estação. Anoto para mim que o homem que viu a Viena de antes se desfazer tinha chamado o Brasil de país do futuro um ano antes de morrer.

**[John Gray on why "progress" in politics is an illusion](https://bigthink.com/mini-philosophy/history-shows-that-human-progress-is-a-myth/)**, Jonny Thomson na Big Think — O texto resume em forma de silogismo uma conversa com Gray: progresso é avanço cumulativo que não se desfaz com as gerações. A tecnologia acumula, mas a ética e a política se desfazem com frequência deprimente, e portanto nelas não há progresso. Para Gray, a ideia de um futuro melhor que qualquer passado é um mito ocidental moderno, cristianismo secularizado, que nem a tragédia grega, nem Shakespeare, nem o budismo supunham. O próprio texto admite que tudo depende dessa definição de progresso, e acho que o argumento se ganha antes de começar: se política é justamente o que pode ser desfeito, a conclusão já estava na régua. Na quarta, o Fukuyama voltou a 1989. Gray recusa o fim da história tanto no sentido de Fukuyama quanto no de Marx.

**[Why women's laughter has long been treated as a threat](https://psyche.co/ideas/why-womens-laughter-has-long-been-treated-as-a-threat)**, Abílio Almeida na Psyche — Começa pela avó Tina, do norte de Portugal: viúva cedo, criou treze filhos, andou de preto até quase o fim e nunca foi vista rindo. Almeida chama de redutora a explicação pela herança católica e defende que o riso das mulheres foi vigiado mais que o dos homens porque, numa ordem em que o homem devia reverência a Deus e a mulher ao homem, rir suspendia a hierarquia. O percurso vai de Crisóstomo, incomodado com mulheres rindo no sermão, aos jornais do fim do século XIX que noticiavam mulheres mortas de tanto rir. O mecanismo vem de Bergson: "Laughter is, after all, the sound of social rigidity cracking under the pressure of human nature." Um estudo de 2019 citado no texto mostra que fazer os outros rirem no trabalho aumenta o status dos homens e diminui o das mulheres. O texto segue para o cinema do começo do século XX, onde as mulheres viam outras rirem na tela sem cair mortas.

## ciência

**[How Different Are Philosophers?](https://dailynous.com/2026/09/10/how-different-are-philosophers-guest-post/)**, Thomas Nadelhoffer no Daily Nous — O post apresenta um estudo publicado na *Philosophical Psychology* com 1.254 pessoas, metade com formação em filosofia. Os filósofos mostram mais traços de TDAH, menos imagem visual, mais fala interior e mais facilidade para manipular representações mentais, e as diferenças se mantêm quando só entram doutores. O que me interessa é o passo seguinte: os traços preveem as respostas aos experimentos mentais independentemente da formação, e quem vê menos na cabeça é mais utilitarista no bonde e atribui mais livre-arbítrio num universo determinista. A epígrafe de William James diz que o temperamento "loads the evidence", e o estudo tenta medir isso. Ressalva minha: os filósofos foram recrutados entre leitores do Daily Nous e do Leiter Reports, e o público geral veio do Prolific.

**[Your personality may be more genetic than scientists realized](https://www.sciencedaily.com/releases/2026/09/260907201554.htm)**, ScienceDaily — Um consórcio juntou 46 coortes e achou mais de 1.200 variantes associadas aos cinco grandes traços. Cada variante tem efeito minúsculo, mas o conjunto pesa e se mantém de um jovem holandês a um aposentado americano. A comparação entre parentes sugere que a associação não se explica só por crescer na mesma casa, e as mesmas variantes aparecem ligadas a saúde, escolaridade, renda e ao hábito de ser notívago. O detalhe que fica é o laço: variantes de abertura a experiência predizem a mudança para um bairro mais cosmopolita, e o bairro reforça a abertura. É comunicado de universidade, não o paper.

## achados

**[Metamorphosis: Transformations in the Early Modern Flap Book](https://publicdomainreview.org/collection/metamorphosis-early-modern-flap-book)**, The Public Domain Review — Livro de abas de 1816 em que a criança transformava Adão em Eva, Eva em sereia (a mulher cuja fala leva à ruína, o que conversa com o texto do riso) e o homem rico em defunto. Na abertura, um aviso explica que "Death is not a being but a state". Muita criança fez a própria cópia à mão.

**[Rope, Twine and Thread: Invisible Technologies of the Stone Age](https://nautil.us/rope-twine-and-thread-invisible-technologies-of-the-stone-age-1284982/)**, Benjamin Taub na Nautilus — O bastão de marfim de Hohle Fels, com 35 mil anos, era ferramenta de fazer corda: passando fibra de taboa pelos furos, a equipe torceu cinco metros em dez minutos. A corda não sobrou, e o texto trata desse viés de uma arqueologia contada pelo que dura. Os Wola, na Nova Guiné, levam de 65 a 80 horas torcendo fio para fazer uma única bolsa.

## fontes paradas

- Eat Your Nuts, 347 dias
- First Round Review, 320 dias
- Dirt, 302 dias
- Gurwinder (The Prism), 258 dias
- Literary Hub, 110 dias
- web.dev, 107 dias
- Out of Office, 80 dias
- A List Apart, 74 dias
- Anti-Mimetic (Luke Burgis), 59 dias
- Off Brand, 51 dias
- Philosophy Now, 41 dias
- Adjacent Possible (Steven Johnson), 34 dias
