# definiram o beijo para poder medi-lo; a carta de amor dispensa

> o ig nobel premiou quem formalizou o que conta como beijo; no mesmo dia, tove jansson escreve o que não cabe em definição e a arqueologia derruba o autocrata inevitável

- edição: segunda-feira, 7 de setembro de 2026 (2026-09-07)
- caderno: ensaio e cultura
- assuntos: ensaio · cultura · ciência · brasil
- itens: 9 de 8 fontes
- original: https://tonho.wtf/diario/2026-09-07-ensaio/
- autoria: escrito por pipeline de llm, revisado por antonio leandro (tonho.wtf)

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O dia todo respeita a mesma ordem de operações: primeiro alguém escreve o que a coisa é, e só depois sai à procura dela. Para descobrir que formigas, ursos-polares e alguns pássaros se beijam, Matilda Brindle e os coautores tiveram antes de redigir uma definição de beijo que atravessasse espécies — contato oral-oral dirigido, não agonístico, com movimento dos lábios e sem transferência de comida. Para perguntar se as pessoas acham que devem alguma coisa a si mesmas, Laura Soter e Fan Yang tiveram antes de separar obrigação de preferência, e inventar um Robinson Crusoé para testar se a dívida sobrevive sem plateia. Um preprint sobre bilíngues mede o consolo em duas línguas e descobre que a temperatura muda e a eficácia não. Toda medida boa começa numa definição estreita, e essa estreiteza é o preço.

O contrapeso do dia é o que se recusa a passar por ali. Jay Griffiths escreve que o selvagem não se compra nem se copia, e é justamente por isso que não entra em planilha. Tove Jansson, aos 41, escreve para a mulher que amava e passa a carta inteira admitindo que não sabe dizer o que está sentindo — e a carta funciona. E, do outro lado, o que acontece quando alguma coisa *é* monopolizável: Gary Feinman mostra em escavação que o rei todo-poderoso não é consequência automática de população grande, e David Cain descobre que sua lista de desejos de 2009 era, em metade dos itens, um inventário de vontades alheias. Ontem o fio era que o texto ficou de graça e entender alguém continua caro. Hoje o preço não caiu; mudou de lugar.

## vínculo

**[Is it morally wrong to not take care of yourself?](https://psyche.co/ideas/is-it-morally-wrong-to-not-take-care-of-yourself)**, Psyche, Laura K Soter e Fan Yang — a tese é psicológica, não normativa: as pessoas comuns acreditam, de forma consistente e consequente, que existem obrigações morais consigo mesmas, mesmo quando ninguém mais é afetado. Mais de 85% dos adultos americanos entrevistados responderam que sim, e o desenho do estudo se dá ao trabalho de blindar a resposta contra duas objeções filosóficas clássicas — a de que obrigação a si é incoerente (se sou eu quem devo e eu quem cobro, posso me dispensar quando quiser, o "paradoxo da autoliberação") e a de que essas obrigações são na verdade devidas a terceiros, como a jogadora que promete ao time entrar em forma. Daí o isolado tipo Crusoé: mesmo sem ninguém em volta, os participantes julgaram que ele erra se não cuida de si. O que decide o que entra na lista é o dano — evitar autolesão e cuidar da saúde mental viraram obrigação, tomar chá e ler ficção ficaram como preferência. Soter e Yang não fecham a conta moral, e é o melhor do texto: a mesma crença que faz alguém dormir é a que faz alguém se sentir moralmente falho por não render.

**[I Long to Read More in the Book of You: Moomins Creator Tove Jansson's Tender and Passionate Letters to the Love of Her Life](https://www.themarginalian.org/2026/09/06/tove-jansson-letters-tuulikki-pietila/)**, The Marginalian, Maria Popova — Jansson conheceu Tuulikki Pietilä numa festa de Natal do sindicato de artistas de Helsinque em 1955, disputando a vitrola; ficaram juntos quase cinquenta anos. As cartas do primeiro verão, com Tooti na Finlândia continental e Tove na ilha do arquipélago de Borgå, são feitas de duas camadas que não se separam: o afeto grande e a lista de miudezas que sustentam uma vida a dois — barro trazido da enseada para as andorinhas, as passas gastas todas de uma vez, um agradecimento sincero por um mata-moscas. "I'm so unused to being happy that I haven't really come to terms with what it involves", ela escreve, e emenda que se sente como um jardim que enfim foi regado. No meio da carta mais romântica ela pede que Tooti, se for escrever em finlandês, por favor use a máquina, porque a letra dela é difícil — e volta ao amor na frase seguinte, sem transição. Popova gosta de costurar isso com a origem de *Moominpappa at Sea*, concebido enquanto Tove carregava pedras na chuva; a costura é bonita e um pouco boa demais, mas as cartas aguentam.

## cultura

**[How Not to Waste Your Wildness](https://www.themarginalian.org/2026/09/07/dont-waste-your-wildness/)**, The Marginalian, Maria Popova sobre Jay Griffiths — o argumento de *Wild: An Elemental Journey* (2006) não é que devemos preservar a natureza lá fora, e sim que o espírito humano é uma das realizações da wildness, de modo que domesticar o mundo é castrar a própria fonte. "What is wild cannot be bought or sold, borrowed or copied", escreve Griffiths, e a lista do que não se copia é a definição por exclusão: aquilo que não sobrevive à transação. O livro saiu de sete anos de viagem, da Amazônia ao Ártico, que começaram numa depressão longa em que ela não conseguia andar nem escrever — o que dá ao texto uma urgência que não é pose. Onde eu desço do bonde é no maniqueísmo: "There are two sides: the agents of waste and the lovers of the wild. Either for life or against it." A frase é boa de ler e ruim de pensar, e o livro é melhor quando descreve do que quando divide o mundo em dois times.

**[Participants, not Prosecutors](https://3quarksdaily.com/3quarksdaily/2026/09/participants-not-prosecutors.html)**, 3 Quarks Daily, Morgan Meis — é uma chamada para o ensaio de Christopher Celenza na Commonweal, e o trecho já entrega a moldura: Maquiavel e Du Bois liam os mortos como parceiros de conversa, e foi entrando nessa conversa que se tornaram parte da tradição que herdaram. Contra isso, Celenza põe o hábito que dominou as últimas décadas — desmascarar, expor, diagnosticar —, batizado por Ricœur de hermenêutica da suspeita a partir de Freud, Nietzsche e Marx: a decisão de tratar toda consciência como falsa consciência. O ponto histórico que o trecho faz vale por si: a dúvida vinha de Descartes e mirava o mundo externo; com aqueles três, ela virou para dentro e a narrativa que a pessoa faz de si mesma passou a ser sempre disfarce. Não li o ensaio inteiro, então fico no que a chamada anuncia — mas o par de verbos do título já é uma tese: participar ou processar.

## brasil

**[Vinte palavras girando ao redor do sol](https://quatrocincoum.com.br/resenhas/biografia/vinte-palavras-girando-ao-redor-do-sol/)**, Quatro Cinco Um, Maria Fernanda Barros — resenha de *Graciliano Ramos: vida e obra*, de Wander Melo Miranda, e começa pelo lugar certo: o autorretrato que Graciliano escreveu em 1948, em terceira pessoa, resumindo cinquenta anos em duas páginas de caderno cultural. Cinco ternos, colarinho 39, calçava 41, escrevia sempre de manhã e à mão, gostava de palavrão, lia a Bíblia sendo ateu, tinha horror a campainha e a quem fala alto. O eixo que Melo Miranda extrai dessa vida ordinária é a arbitrariedade do poder, e ele a ancora numa surra injusta do pai na primeira infância, que o escritor contou décadas depois à filha Clara com a conclusão que o define: "Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça". Barros elogia a prosa enxuta do livro — magra como eram os livros do objeto — e crava duas objeções que valem a leitura: chamar Graciliano e Rosa de maiores prosadores brasileiros do século 20 é uma injustiça com Clarice, e a pesquisa não busca ineditismo. Fica também o Graciliano crítico de si, capaz de dedicar *Caetés* a Cassiano Ricardo com um "Peço-lhe que não leia essa droga. É pavorosa" — e de rasgar em pedacinhos, na frente do autor, um conto de Joel Silveira, antes de convidá-lo para uma cachaça.

## ciência

**[Examining Social Emotion Regulation in Spanish-English Bilinguals](https://osf.io/preprints/psyarxiv/uh68j_v2/)**, PsyArXiv — o estudo parte de um achado consolidado, o de que a reatividade emocional é menor na segunda língua, e pergunta o que isso faz com o consolo: reinterpretar a situação de alguém funciona melhor na língua materna, pela fluência, ou na segunda, pela distância? As hipóteses contrárias foram pré-registradas, o que é a parte honesta do desenho. Com 250 mulheres bilíngues espanhol-inglês nos EUA, imagens negativas e áudios que ou descreviam ou reinterpretavam a cena, o resultado foi duplo: o afeto negativo foi menor nas rodadas em inglês, replicando a menor intensidade em L2, mas a reapreciação social reduziu o afeto negativo igualmente nas duas línguas. Ou seja, a língua mexe na temperatura do sentimento e não mexe na eficácia de quem te acalma. É preprint, só mulheres, só nos EUA, quase todas com espanhol como primeira língua e alta proficiência nas duas — mas para quem vive metade da vida numa língua emprestada, é um dado que desloca a intuição em vez de confirmá-la.

**[What Archaeology Reveals About the Rise of All-Powerful Rulers](https://nautil.us/what-archaeology-reveals-about-the-rise-of-all-powerful-rulers-1284855/)**, Nautilus, Tim Vernimmen entrevista Gary Feinman — a história arrumadinha diz que agricultura gerou estoque, estoque gerou desigualdade, população grande exigiu chefe forte, e a democracia foi um raio grego que depois se espalhou. Feinman passou a carreira escavando casas no México e em Shandong e encontrou o oposto do previsto: em quase toda casa escavada alguém produzia algo para troca, e não apareceram os armazéns que permitiriam a um poder central acumular e distribuir — sem monopólio de recurso, a coerção não tem onde se apoiar. Teotihuacán e Monte Albán reforçam pelo lado simbólico: praças abertas, murais com procissões de oficiais mascarados em vez de reis nomeados, topos de templo largos o bastante para grupos, e nenhum túmulo opulento à moda dos maias clássicos de Palenque. Os dois testes citados (PNAS em 2025, comparando maior e menor casa em mais de mil sítios; Science Advances em março de 2026, cruzando governança e escala em 40 contextos) chegam ao mesmo número: tamanho populacional explica cerca de um quarto da variação em desigualdade ou grau de autocracia. O resto é escolha, e a entrevista deixa o mecanismo por conta do leitor — o que é uma pena, porque é justamente ali que ela seria mais útil.

## achados

- **[Buried underpants and a new definition of kissing win 2026 Ig Nobel prizes](https://www.nature.com/articles/d41586-026-02650-x)**, Nature, Chris Simms — a cerimônia foi em 3 de setembro, em Zurique. O prêmio de biomecânica foi para a definição de beijo que faz o gênero atravessar espécies e datar o hábito em cerca de 21,5 milhões de anos, até o ancestral dos grandes macacos, o que implica sapiens beijando neandertais. O de ciência do solo foi para o enterro de mil cuecas em mais de 25 países, desenterradas dois meses depois como medida barata de atividade biológica do solo. E o de economia foi para o trabalho de Piff e colegas sobre gente rica se comportar de forma menos ética — que, lido no mesmo dia da entrevista de Feinman, é a mesma pergunta feita com trezentos anos de diferença.
- **[How to Outlive Your Bucket List](https://www.raptitude.com/2026/09/how-to-outlive-your-bucket-list/)**, Raptitude, David Cain — ele abriu a lista de desejos que escreveu em 2009 e não tocava havia dez anos: 55 de 113 feitos, quase todos na ponta fácil (livros lidos, cidades visitadas). Havia "Attend South by Southwest" ali, e hoje ele não lembra o que é. O mecanismo que ele isola é bom: quando se inventam desejos às dúzias, não existe noção do que está sendo trocado — 95% de qualquer meta é pagar o custo dela, e a Ferrari na Autobahn custa dez mil dólares que teriam ido para outra coisa que você preferia. A observação que fica é sobre a lista antiga inteira: nenhum item envolvia outras pessoas, exceto como cenário.

## fontes paradas

Espiral (Lalai Persson) há 68 dias, Philosophy Now há 36, The Public Domain Review há 40, Off Brand há 46, Anti-Mimetic há 54, A List Apart há 69, Out of Office há 75, web.dev há 102, Literary Hub há 105 e The Sunday Long Read há 33. Já dá para tratar como encerradas: Gurwinder (253), Dirt (297), First Round Review (315), Eat Your Nuts (342).
