# brincar sem placar virou exceção, e medir melhor não resolve

> o ensaio do aeon diz que a gamificação capturou o brincar sem propósito; o resto do dia discorda do remédio, entre medir melhor a sessão e não medir nada

- edição: terça-feira, 1 de setembro de 2026 (2026-09-01)
- caderno: ensaio e cultura
- assuntos: cultura · vínculo · papers · brasil
- itens: 9 de 10 fontes
- original: https://tonho.wtf/diario/2026-09-01-ensaio/
- autoria: escrito por pipeline de llm, revisado por antonio leandro (tonho.wtf)

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Nove peças hoje, e metade delas discute a mesma coisa por caminhos que não se cruzam: o que acontece quando a medida de uma experiência passa a valer mais do que a experiência. Justin Neuman, no Aeon, descreve o lazer convertido em terceiro turno, com métrica própria, culpa própria e sensação própria de estar atrasado. Batchelor, lido pela Popova, ensina uma prática cuja primeira instrução é não esperar que nada aconteça. Um preprint acompanha 3.943 sessões de TikTok e descobre que 42% delas terminam servindo a uma função diferente da que tinham no começo — o número que você extrai depende do instante em que você olha. Oliver Sacks lembrava em detalhe uma bomba incendiária que não viu. E a repórter da Marie Claire admite, antes da primeira pergunta, que dois comentários sobre a própria aparência tinham tirado o sono dela na véspera.

O desacordo está no remédio, e é aí que o dia fica interessante. Neuman quer menos: "We don't just need different games. We need more nothing." O preprint do TikTok quer mais e melhor — se o tempo de tela agregado não explica nada, meça na abertura e no fechamento de cada sessão, que é onde o efeito aparece. Pinker muda o eixo inteiro: o problema nunca foi o que cada um sabe, é o que todo mundo sabe que todo mundo sabe. Os três podem estar certos ao mesmo tempo, o que provavelmente quer dizer que "medir" não é um verbo só.

## vínculo

**[The Art of Solitude: Buddhist Scholar and Teacher Stephen Batchelor on Contemplative Practice and Creativity](https://www.themarginalian.org/2026/08/31/the-art-of-solitude-stephen-batchelor/)** — The Marginalian, Maria Popova. Popova costura Whitman, Sarton, Rilke e Bishop até chegar em Batchelor, que trata solidão como arte que se cultiva, não como estado em que se cai. A instrução central é o avesso de uma técnica: esperar sem esperar nada, perguntar "o que é isto?" sem interesse na resposta, porque a vontade de responder já estraga a pergunta. E então ele desmonta a própria oposição: "Here lies the paradox of solitude. Look long and hard enough at yourself in isolation and suddenly you will see the rest of humanity staring back." Vale ler junto com a edição de 31/08, onde a solidão aparecia como mercado: lá ela era déficit a corrigir com produto, aqui é condição a habitar, e a diferença não é de tom.

**[Brothers, for Better or Worse](https://electricliterature.com/brothers-for-better-or-worse/)** — Electric Literature, Carson Markland. É uma lista de sete romances (Young Mungo, Salvage the Bones, Intermezzo, The Sisters Brothers, We The Animals, East of Eden, The Bee Sting), mas a tese está nos dois parágrafos de abertura, e é mais dura que a lista: irmandade é a única relação do berço ao túmulo, e o irmão mais novo já nasce medido contra uma régua que não escolheu, com duas saídas igualmente ruins, seguir os passos sem alcançar ou desviar e decepcionar. Markland abre com um provérbio: "If brothers were such a good idea, God would have given himself one." A imagem que fica é a dos ímãs de mesma carga, parecidos e por isso mesmo repelidos. Markland escreveu um romance sobre os Kennedy com Bobby no lugar do spare, o que explica de onde vem o interesse.

**[The Memoir Land Author Questionnaire 235: Emerson Whitney](https://memoirland.substack.com/p/the-memoir-land-author-questionnaire-5d5)** — Memoir Monday, Sari Botton. Questionário na estreia de O Mother (McSweeney's, saiu ontem). Whitney voltou em 2020 para a ilha no Maine da infância, para ficar perto da mãe e lidar com um diagnóstico de Ehlers-Danlos; a mãe, que se descrevia como faxineira de hotéis e casarões da ilha, tinha os mesmos diagnósticos e se matou em 2022. Ao esvaziar as coisas dela, Whitney encontrou um tupperware de papelada clínica — inclusive um formulário em que ela se deu nota zero de cinco para o quanto gostava de si mesma — e um post-it solto numa foto de infância perguntando se ela seria autista. O livro é uma carta para ela, e o que está sob investigação é o capacitismo internalizado como coisa que se herda de dentro da família. É a entrevista, não o livro: dá para saber o que a coisa se propõe, não se ela entrega.

## cultura

**[More nothing now](https://aeon.co/essays/play-is-doing-its-work-even-if-were-not-keeping-score)** — Aeon, Justin Neuman. Neuman achou os filhos jogando Catan errado: tinham desmontado o tabuleiro num arquipélago de ilhas e inventado, para um jogo sobre conectividade, uma finalidade que não dá ponto. O primeiro impulso dele foi ensinar as regras, o segundo foi descobrir como ganhar, e o terceiro, o que interessa, foi criar coragem de pedir para sentar no chão e construir junto. Daí puxa Caillois para separar agôn, jogar um jogo, de paidia, brincar dentro dele, e sustenta que a cultura digital colapsou o espectro inteiro numa faixa só, competição mais estrutura — não existe categoria, nem na App Store nem no vocabulário, para o brincar que se recusa a competir. O argumento não é contra placar: Neuman é ultramaratonista com dois títulos nacionais de faixa etária e diz que agôn é o que ele faz nos fins de semana. O mecanismo ele pega emprestado de C. Thi Nguyen, value capture, quando o valor simplificado do jogo coloniza a atividade que o jogo devia servir, e o streak do Duolingo vira a razão de estudar. Minha cópia do texto corta no meio da citação de Winnicott sobre apercepção criativa, então não sei como ele fecha.

## brasil

**[Marina Ruy Barbosa: 'Crescer diante do público pode ser muito duro, muito confuso, muito cruel'](https://revistamarieclaire.globo.com/moda/noticia/2026/09/marina-ruy-barbosa-tenho-orgulho-de-ter-construido-uma-carreira-um-patrimonio-e-a-minha-identidade.ghtml)** — Marie Claire. Os quatro primeiros parágrafos são um ensaio curto sobre imagem: a repórter conta que tinha dormido mal por dois comentários de desconhecidos sobre a própria aparência, abriu a câmera, viu Marina do outro lado e pensou na desproporção entre as duas. Daí puxa o estádio do espelho de Lacan — o reflexo promete uma unidade e inaugura um desencontro, porque a imagem é você e nunca dá conta de você — para dizer que quase um século depois cercamos o espelho de outros espelhos: câmera frontal, feed, versões antigas devolvidas ao rosto sem aviso. Depois disso vira entrevista de divulgação de Antártida (estreia em 17/09) e de Tremembé, com as perguntas que se espera. A resposta que sobrevive à divulgação é sobre envelhecer: "Passamos muito tempo tentando congelar uma versão da gente." Opinião minha: sem o parágrafo do Lacan isso era release, e é um pouco constrangedor que a parte boa do texto seja a que a revista provavelmente considerou digressão.

## ciência

**[Regular light-intensity exercise accelerates contextual fear extinction with reduced dorsal CA3 activation in male rats](https://tsukuba.repo.nii.ac.jp/records/2024949)** — Hiraga, Shimoda, Hata, Torma e colegas, repositório da Universidade de Tsukuba. Ratos correm em esteira numa intensidade definida em relação ao limiar de lactato, leve o bastante para ser viável em quem não consegue treinar forte, e depois passam por extinção de medo contextual. Quem correu congela menos, e a assinatura é uma queda de c-Fos no CA3 dorsal durante a extinção, correlacionada com a queda do congelamento; o giro denteado ventral, ligado a ansiedade, também cai. O que faz o paper valer é ter mecanismo onde normalmente há só correlação: a hipótese era que a neurogênese hipocampal suprime a reativação dos neurônios recrutados na aquisição do medo, e é exatamente essa reativação que aparece menor. Ressalva do tamanho do achado: ratos, machos, e a ponte para TEPT humano é dos autores, não do experimento.

**[The surprising link between false memories and imagination](https://bigthink.com/mind-behavior/the-surprising-link-between-false-memories-and-imagination/)** — Big Think, Anne-Laure Le Cunff. Em Uncle Tungsten, Sacks descreve em detalhe uma bomba de termita que caiu atrás da casa da família durante a Blitz; meses depois de publicado, o irmão mais velho informou que ele estava no internato e que a cena vinha de uma carta. Mesmo depois de saber, a lembrança continuou parecendo dele. Le Cunff usa isso para a hipótese da simulação episódica construtiva: lembrar e imaginar montam cenas com as mesmas peças e o mesmo hipocampo, e o preço dessa flexibilidade é a inflação por imaginação, imaginar um evento aumenta a confiança posterior de que ele aconteceu. O texto termina em três exercícios de criatividade para brainstorming, e é onde ele se estraga — o caso Sacks não pedia aplicação nenhuma.

## achados

- **[Steven Pinker on Why Authoritarians Fear Common Knowledge](https://3quarksdaily.com/3quarksdaily/2026/09/steven-pinker-on-why-authoritarians-fear-common-knowledge.html)** — 3 Quarks Daily aponta para um trecho, na Persuasion, do livro novo de Pinker. A tese cabe numa frase: ditadura nenhuma teme que as pessoas saibam, teme que todo mundo saiba que todo mundo sabe, porque é isso, e não o descontentamento, que permite coordenar. Sem conhecimento comum sobra ignorância pluralística, cada um calado achando que os outros são leais; a manifestação de rua existe para fabricar o que falta. Excerto de excerto, vale o link.
- **[From app open to app close: Function and well-being across TikTok sessions](https://osf.io/preprints/psyarxiv/ekv3c_v1/)** — PsyArXiv. 161 participantes, 3.943 sessões pareadas em sete dias, bem-estar medido na abertura e no fechamento, função declarada nas duas pontas (entretenimento, acesso, atenção social, fuga). 42% das sessões mudam de função no meio do caminho, quase sempre terminando em entretenimento, e a variação de bem-estar se organiza melhor em torno da função do fim do que a do começo. A associação entre uso para fuga e bem-estar pior aparece entre pessoas mas não dentro de cada pessoa, e some numa análise de sensibilidade — os próprios autores dizem que a conclusão depende do nível e do momento em que se mede. Refina o de 30/08: não é que o dado não veja, é que ele depende de onde você corta a sessão.

## fontes paradas

Quinze fontes do dossiê estão sem publicar. As que fazem falta: Literary Hub (99 dias), The Millions (56), The Public Domain Review (35), Philosophy Now (31), A List Apart (64). Espiral, de Lalai Persson, faz 63 dias. Dirt (292), First Round Review (310) e Eat Your Nuts (336) já dá para tratar como encerradas.
