antonio leandro

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Cândido, ou o Otimismo

Candide, ou l'Optimisme

1759 · Voltaire

Expulso do castelo onde o tutor Pangloss lhe ensinou que tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis, um jovem atravessa a guerra, o terremoto de Lisboa, a Inquisição e as Américas testando a lição. Voltaire publicou o conto em 1759, em segredo e sob pseudônimo.

ficha

título original
Candide, ou l'Optimisme
país
França
idioma original
francês
edição que li
penguin-companhia clássicos, 2012

sobre

rascunho escrito por um agente a partir das fontes; ainda não revisei.

o texto abaixo revela o desfecho.

cândido é um conto filosófico montado como experimento: um jovem criado no castelo do barão de thunder-ten-tronckh, na vestfália, recebe do tutor pangloss a doutrina leibniziana de que tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis, é expulso desse paraíso doméstico e passa trinta capítulos submetendo a frase ao mundo — recrutamento forçado, guerra, naufrágio, terremoto, auto de fé, roubo. a estrutura é de viagem e é geográfica: os capítulos I–X se passam na europa, XI–XX nas américas e XXI–XXX de volta à europa e ao império otomano, com a parada no eldorado funcionando como divisor da narrativa (wikipedia en).

contra o que o livro foi escrito

os alvos são datados. voltaire, filósofo do iluminismo, escreve contra a monadologia de leibniz, contra a guerra dos sete anos e, principalmente, contra o terremoto de lisboa de 1755 — catástrofe que já o havia levado ao poème sur le désastre de lisbonne e que ele considerava incompatível com a tese do mundo ótimo: se este fosse o melhor mundo possível, deveria ser melhor do que é. o problema do mal, tema corrente entre os filósofos da época, entra aqui por via cômica, e a sátira não poupa religião, teólogos, governos, exércitos, filosofias e filósofos. a linhagem literária é igualmente explícita: as viagens de gulliver (1726), de swift, é o parente mais próximo, com o télémaque (1699) de fénelon e o cosmopolite (1753) de fougeret de monbron entre as fontes prováveis. o formato é o dos contes philosophiques que voltaire já praticava em zadig e micromégas, e que cândido acabou fixando como modelo.

uma publicação clandestina

a data de composição não é conhecida com exatidão: os estudiosos estimam redação principalmente no fim de 1758, com início possível já em 1757, parte dela em les délices, perto de genebra, e parte durante três semanas em schwetzingen, no verão de 1758. a lenda de que o livro foi escrito em três dias — repetida também na wikipedia pt — é atribuída pela wikipedia en a uma má leitura de um trabalho de 1885. o lançamento foi simultâneo em cinco países, não depois de 15 de janeiro de 1759, com as maiores tiragens saindo em genebra (cramer), amsterdã (marc-michel rey), londres (jean nourse) e paris (lambert); dezessete versões francesas de 1759 sobrevivem, e a disputa sobre qual é a primeira nunca foi encerrada. o processo foi tão secreto que a wikipedia en o chama de provavelmente a obra mais clandestina do século, e o texto saiu assinado por um pseudônimo, “monsieur le docteur ralph”. foi proibido de imediato, por blasfêmia e sedição. o texto ainda mudou depois: em 1761 voltaire ampliou o capítulo XXII, e a última edição autorizada por ele é a édition encadrée de 1775.

o que ficou

hoje cândido é tratado como a obra maior de voltaire, listado no cânone ocidental e entre os textos mais ensinados da literatura francesa. a trilha brasileira é longa: a wikipedia pt liga o conto à reflexão sobre otimismo e pessimismo em memórias póstumas de brás cubas (1881) e quincas borba (1891), ao candinho de mazzaropi — que inverte a mensagem — e à novela êta mundo bom! (2016). fora daqui, rendeu a opereta de leonard bernstein (1956) e ilustrações de paul klee, que disse ter descoberto o próprio estilo lendo o livro.

quem chega hoje encontra um texto curto, rápido e ainda engraçado, cuja graça depende de reconhecer o que está sendo demolido. e encontra o desfecho, que é o ponto: cândido não refuta pangloss com um contra-argumento, troca o mantra por uma decisão prática — devemos cultivar nosso jardim.

meu registro

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